Sem autocrítica, o progressismo perde terreno

Paulo Trindade

Abril 12, 2026

self reflection

Notas sobre direitos, linguagem e reação

Há um erro recorrente no debate contemporâneo: a ideia de que qualquer autocrítica no campo progressista equivale a uma cedência ao conservadorismo — ou, pior ainda, à legitimação de discursos reacionários. É um erro compreensível, num contexto de polarização crescente. Mas é, ainda assim, um erro. E, no momento atual, um erro perigoso.

A expansão de direitos nas últimas décadas é um dos traços mais importantes das democracias liberais. O reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a possibilidade de adoção por casais do mesmo sexo, a maior visibilidade de identidades historicamente marginalizadas — tudo isso representa um avanço civilizacional real. Estes são valores fundamentais. E não são negociáveis ao sabor de ciclos políticos ou desconfortos momentâneos.

Mas uma coisa são os valores. Outra, diferente, é a forma como esses valores são traduzidos em práticas sociais, culturais e pedagógicas.

É aqui que a reflexão se torna necessária — e mais exigente.

Nos últimos anos, muitos debates sobre identidade e linguagem saíram rapidamente de círculos académicos ou ativistas para o espaço público. Em muitos casos, essa transição foi feita de forma precipitada e pouco adaptada ao público geral. Conceitos complexos passaram a circular sem tradução suficiente, sem gradualismo e, por vezes, com um tom normativo.

O resultado não foi apenas incompreensão. Foi resistência — muitas vezes previsível.

A linguagem inclusiva (ou neutra) ilustra bem este ponto. Como experimentação individual ou em contextos académicos, faz parte da evolução viva das línguas. No entanto, quando é introduzida de forma institucional em materiais escolares, documentos públicos ou comunicação oficial — com formas como “todes”, “menines” ou pronomes como “elu” — surgem perguntas razoáveis: é pedagogicamente eficaz para crianças em fase de aquisição da linguagem? Contribui para a clareza ou introduz ruído desnecessário?

E há uma questão raramente discutida: pode a tentativa de inclusão linguística gerar formas de exclusão cognitiva? Para crianças com dificuldades de leitura — como dislexia — ou para quem está a aprender a língua, estruturas artificiais ou não estabilizadas podem aumentar a complexidade e dificultar a compreensão.

Estas dúvidas não são, em si mesmas, conservadoras. São questões de adequação, de eficácia e de contexto. E, de resto, não surgem apenas à direita: têm sido levantadas também por linguistas, professores e pais em contextos progressistas, tanto em Portugal como no Brasil.

O mesmo se aplica à introdução de temas de identidade em idades muito precoces. Entre o silêncio absoluto e a exposição acrítica existe um espaço de equilíbrio que nem sempre foi respeitado. Em alguns casos, conteúdos complexos foram apresentados sem a devida adaptação ao desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças — não por má intenção, mas por um défice de mediação e, em certos casos, por excesso de confiança na sua aceitação imediata.

E quando essa mediação falha — ou quando parece falhar — abre-se espaço para desconforto legítimo.

O problema agrava-se quando esse desconforto não encontra lugar no debate. Quando dúvidas são imediatamente rotuladas ou descartadas, o efeito não é proteger os valores fundamentais — é enfraquecer a sua base social de apoio. Pessoas que, no essencial, concordam com a expansão de direitos começam a sentir-se afastadas não pelo conteúdo, mas pela forma.

Esse afastamento cria um vazio. E esse vazio raramente fica por ocupar.

É aí que entram os discursos mais radicais, que transformam casos específicos em narrativas gerais de “excesso” ou “imposição”.

Mas há um passo adicional que importa reconhecer: quando certas formas de ativismo são percecionadas como excessivas, artificiais ou impositivas, tornam-se particularmente eficazes como matéria-prima para mobilização política. O que começa como radicalismo estético ou discursivo — na linguagem, nos símbolos, na forma — é traduzido pela direita radical em radicalismo político, apresentado como defesa do “senso comum” contra uma alegada imposição cultural.

Não porque os conteúdos sejam equivalentes, mas porque a perceção de desajuste facilita a construção dessa equivalência.

Sem um trabalho interno de distinção — entre valores e práticas, entre avanços e excessos, entre erros de execução e fundamentos legítimos — o campo progressista perde capacidade de resposta. Fica reduzido a uma defesa genérica, por vezes defensiva, que não consegue dialogar com dúvidas razoáveis nem desmontar críticas mal-intencionadas.

E isso tem consequências.

Afasta aliados naturais. Reduz o espaço de diálogo. E entrega aos extremos o monopólio da crítica — mesmo quando essa crítica é distorcida.

A autocrítica, neste contexto, não é fraqueza. É uma forma de rigor.

Não se trata de recuar nos direitos, mas de reconhecer que, em alguns momentos, houve excesso de ambição sem suficiente adaptação. Que certas abordagens foram percecionadas como imposições vindas de cima. Que a comunicação falhou onde deveria ter construído pontes.

Corrigir isso não é ceder aos conservadores. É recuperar a capacidade de convencer, em vez de apenas acusar. É distinguir o que é direito irrenunciável do que é método questionável.

Talvez o problema não tenha sido “ir longe demais”, mas sim, por vezes, “ir rápido demais sem traduzir o suficiente”.

E isso pode — e deve — ser corrigido.

Porque, no fim, a questão não é apenas o que defendemos. É também como o fazemos. E sem essa reflexão, o risco não é apenas perder o debate. É perder a capacidade de o travar em condições justas.

Sem autocrítica, o progressismo perde mais do que nuance. Perde terreno — e deixa de saber como o recuperar.


Cŕeditos

Imagem em destaque – Rasmus Smedstrup Mortensen

Deixe um comentário