Depois do algoritmo: a escolha como infraestrutura

Paulo Trindade

Abril 12, 2026

Durante anos, habituámo-nos a um feed que ninguém escolhe, mas que molda tudo o que vemos.
Chamamos-lhe “algoritmo” — como se fosse neutro. Não é.

O problema nunca foi apenas o conteúdo que circula nas redes sociais. Foi sempre a forma como esse conteúdo é organizado. Estudos recentes mostram que a posição de um post influencia decisivamente a probabilidade de ser visto e escolhido, muitas vezes sem que o utilizador tenha consciência disso. O ranking não reflete apenas relevância — ajuda a produzi-la.

A lógica é cumulativa: o que aparece primeiro recebe mais atenção, gera mais interação e, por isso, permanece visível. Um ciclo de reforço que transforma o feed numa arquitetura de poder. Não é apenas um filtro. É um sistema que define o que ganha importância — e, por consequência, o que desaparece.

Durante muito tempo, esta mediação foi invisível. E é precisamente essa invisibilidade que tornou o modelo dominante.


A alternativa começou fora do centro

A reação a este modelo não começou agora — nem começou com novas apps.
Começou nas margens da web.

Redes baseadas em protocolos abertos, como o Mastodon ou o Bluesky, ensaiaram uma alternativa simples: feeds cronológicos, listas, escolha explícita de contas e fontes. Nestes ambientes, o utilizador volta a ter algum controlo sobre o que vê.

Mas esse controlo tem um custo.
Escolher dá trabalho.
Mas esse esforço inicial tem um retorno: maior controlo, menor fadiga e uma experiência menos dependente de ciclos de atenção e polarização.

A web aberta devolveu autonomia, mas fragmentou a experiência. O utilizador ganha liberdade, mas perde coerência. O feed deixa de ser imposto — mas também deixa de ser fácil.


O ponto intermédio: agregar sem resolver

Foi nesse espaço que surgiram ferramentas intermédias. O Openvibe é um exemplo claro: um agregador que reúne conteúdos de diferentes redes descentralizadas num único fluxo.

Mais do que uma solução final, representa uma tentativa de reconstruir unidade sem regressar às plataformas fechadas. Um passo importante — mas incompleto.

Porque juntar fontes não é o mesmo que organizar atenção.

A agregação resolve o problema da fragmentação. Não resolve o problema da hierarquia. O utilizador passa a ver mais — mas não necessariamente a ver melhor.


O Surf e a ambição de estruturar a escolha

É neste contexto que surge o Surf (Flipboard).

Desenvolvido pela equipa da Flipboard e apresentado como um “browser para a web social”, o Surf vai mais longe. Permite combinar conteúdos de plataformas descentralizadas (Bluesky, Mastodon, Threads), RSS, vídeo, podcasts e publicações num único sistema. Mais do que agregar, transforma a curadoria em algo partilhável e estruturável: feeds construídos pelo utilizador, filtráveis, eventualmente assistidos por ferramentas, e que podem ser publicados como “social websites” independentes.

O conceito não é novo. Mas a ambição é diferente.

O Surf não cria a curadoria. Torna-a infraestrutura.


O que realmente está em causa

É tentador ler esta mudança como um simples confronto entre algoritmos e humanos. Mas essa oposição é simplista.

O problema nunca foi a existência de algoritmos. Foi a sua opacidade — e o facto de operarem segundo objetivos que não controlamos. Sistemas orientados para maximizar atenção tendem a amplificar o que prende, não necessariamente o que esclarece. E, como mostram vários estudos, essa lógica pode favorecer dinâmicas de conflito, ruído e até conteúdo indesejável.

Substituir o algoritmo por curadoria não elimina o problema.
Muda quem exerce o poder.

A diferença é outra: a curadoria pode ser visível, ajustável, contestável. Pode ser apropriada pelo utilizador.


Do feed automático ao feed intencional

Durante muito tempo, construir o próprio feed foi uma prática de nicho — associada a utilizadores mais técnicos, dispostos a trocar conveniência por controlo. RSS, listas, feeds personalizados: tudo isso existia, mas fora do mainstream.

Hoje, essa lógica começa a regressar ao centro da experiência digital. Não por nostalgia, mas por necessidade.

O modelo dominante tornou-se demasiado eficiente a captar atenção — e demasiado opaco na forma como o faz. A resposta não está em abandonar a tecnologia, mas em reconfigurá-la.

A web aberta mostrou que é possível escolher.
Ferramentas como o Openvibe mostraram que é possível agregar.
O Surf sugere que é possível estruturar essa escolha.

Se terá sucesso, é outra questão. Mas a direção parece clara.


Quem decide o que vemos

No fim, a questão não é técnica.
É política.

Num ecossistema onde a visibilidade gera relevância, o problema deixa de ser o conteúdo disponível — e passa a ser quem define a ordem em que esse conteúdo aparece.

Durante anos, aceitámos feeds definidos por sistemas invisíveis.
O que está agora em causa é a possibilidade de os tornar explícitos — e, em última instância, de os reapropriar.

Talvez a próxima fase da internet não passe por melhores algoritmos, mas por menos dependência deles — não eliminando a mediação, mas tornando-a consciente.

Porque, num mundo saturado de informação, a questão já não é o que existe.
É quem decide — e como decide — o que importa.

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