Entre a retórica de vitória e os resultados no terreno, a guerra com o Irão expõe um deslocamento mais profundo: quando a política externa deixa de ser estratégia e passa a funcionar como expressão de poder.
A guerra foi apresentada como uma demonstração de força.
Mas os resultados contam outra história.
O regime iraniano não caiu. O controlo do Estreito de Ormuz permaneceu contestado, com o Irão a usá-lo como alavanca de perturbação e os Estados Unidos a responderem com um bloqueio naval aos portos iranianos no estreito, iniciado a 13 de abril. O programa nuclear foi severamente danificado, mas não eliminado — as capacidades de enriquecimento subsistem. E a promessa de uma vitória rápida transformou-se numa trégua temporária, já fragilizada pelo impasse nas negociações.
Ainda assim, a narrativa oficial permaneceu intacta: uma “vitória total e completa”, uma capital-V military victory, apesar da ausência de mudança de regime ou de uma solução duradoura, como sublinhado em análises recentes da The New Yorker.
O desfasamento não é apenas operacional. É político — e, em última instância, simbólico.
Onde a Casa Branca proclamou vitória, a realidade revelou um paradoxo: o Irão não só resistiu como transformou a vulnerabilidade num instrumento de poder. O controlo do Estreito de Ormuz — por onde passa uma parte crítica do abastecimento energético global — permaneceu nas suas mãos, com impactos diretos nos mercados e na estabilidade económica.
A guerra que pretendia asfixiar o regime acabou por reforçar a sua narrativa de resiliência.
Durante décadas, a política externa americana — com todos os seus erros e contradições — manteve uma lógica reconhecível: definir objetivos, avaliar custos, mobilizar alianças, gerir consequências. Mesmo quando falhava, havia um enquadramento estratégico que permitia interpretar a ação.
O que este episódio sugere é um deslocamento dessa lógica.
A decisão de avançar para o conflito não resultou de uma estratégia coerente e sustentada, mas de um processo onde o impulso, a perceção e a lógica de afirmação política ganharam centralidade.
O círculo de decisão, longe de funcionar como espaço de contraditório, surge como uma estrutura de validação — não para testar hipóteses, mas para confirmar convicções.
Essa lógica encontrou expressão na própria condução da guerra. A doutrina de “letalidade máxima”, associada à liderança política e militar, partiu do pressuposto de que a intensidade da força poderia compensar a ausência de clareza estratégica. Mas a força, quando desligada de objetivos políticos consistentes, tende a produzir efeitos difíceis de controlar.
A eliminação do topo da hierarquia iraniana — incluindo o Aiatolá Ali Khamenei — não abriu espaço para transição. Pelo contrário, reforçou os elementos mais intransigentes, que passaram a interpretar a própria sobrevivência do regime como prova da sua resiliência.
Ao mesmo tempo, erros operacionais com consequências humanas devastadoras — incluindo ataques que atingiram alvos civis — expuseram o custo moral de uma abordagem que privilegiou intensidade sobre distinção entre meios e fins.
Neste contexto, a guerra deixa de funcionar como instrumento calibrado de política externa. Passa a operar também como linguagem — uma forma de afirmação de poder que não depende totalmente dos resultados que produz.
Isso ajuda a explicar o paradoxo central: quanto maior a intensidade da ação militar, menor o controlo efetivo sobre os seus efeitos políticos. A pressão não abriu espaço para negociação; contribuiu para reforçar a lógica de dissuasão. Perante a vulnerabilidade demonstrada, a conclusão estratégica do regime torna-se mais previsível: a necessidade de garantir capacidade de retaliação.
Este padrão não surge isolado.
A retirada do acordo nuclear com o Irão em 2018 (JCPOA) já tinha exposto uma lógica semelhante: desmontar um mecanismo imperfeito sem apresentar uma alternativa viável. A diferença agora é de escala. O que antes era uma decisão política contestável transforma-se numa ação militar com consequências diretas e difíceis de reverter.
Ao mesmo tempo, o impacto ultrapassa o teatro imediato do conflito. As alianças são testadas, não apenas pela divergência de posições, mas pela erosão da confiança. Parceiros tradicionais — incluindo alguns Estados do Golfo — passaram a expressar preocupações com a instabilidade energética e com a previsibilidade da liderança americana.
Análises de organizações como o International Crisis Group têm vindo a alertar para o risco de escalada prolongada e para a possibilidade de reforço das dinâmicas de proliferação nuclear na região.
Neste ambiente, adversários não precisam de responder de forma simétrica. Basta observar, ajustar e esperar.
O efeito mais duradouro pode não ser o que aconteceu no terreno, mas o que se tornou visível: um modelo de poder que tende a privilegiar a afirmação sobre a coordenação, a reação sobre a antecipação, e a narrativa sobre a consistência estratégica.
E isso altera mais do que um conflito.
Altera a forma como o poder é exercido — e percebido.
Porque quando a política externa deixa de ser predominantemente um instrumento de organização e passa a incorporar uma dimensão expressiva, o risco não é apenas falhar objetivos.
É tornar mais difícil defini-los de forma consistente.
Assim se completa o círculo: quando a guerra se torna sistema, a estratégia dissolve-se em expressão — e o desfasamento entre retórica e resultado deixa de ser falha, passando a ser combustível. Como já escrevi em “Quando a guerra se torna sistema”, o problema não está apenas nos conflitos, mas na forma como passam a estruturar o próprio funcionamento do poder.