O debate sobre o CHEGA tem oscilado entre dois extremos pouco úteis: classificá-lo como “fascismo” ou descartá-lo como mero populismo sem densidade ideológica. Ambas as leituras captam elementos reais, mas falham em explicar o fenómeno na sua totalidade.
O problema está no próprio enquadramento. Em vez de perguntar se estamos perante um partido liberal ou iliberal, democrático ou antidemocrático, importa perguntar: como funciona o iliberalismo neste caso — como identidade ou como instrumento?
A distinção não é apenas semântica. Um iliberalismo de identidade tende a manifestar-se através de coerência ideológica, continuidade programática e relativa estabilidade discursiva. Já um iliberalismo instrumental surge como um repertório político flexível — mobilizado conforme as circunstâncias, adaptado ao contexto e orientado sobretudo pela eficácia eleitoral.
No caso português, há sinais claros de que o iliberalismo não se apresenta como um sistema doutrinário plenamente estruturado, mas antes como um recurso estratégico. O discurso anti-sistema é um exemplo paradigmático: ora denuncia as instituições como corruptas e capturadas, ora as utiliza como veículo legítimo de transformação. A própria ideia, expressa por dirigentes do partido, de “mudar o sistema por dentro”, ilustra bem esta ambivalência — não se trata de rejeitar o quadro institucional, mas de o instrumentalizar.
Esta lógica estende-se à dimensão programática. Em diferentes momentos, o partido oscila entre posições económicas liberalizantes — como propostas de redução fiscal — e discursos de crítica ao funcionamento do Estado que apelam a uma base eleitoral mais ampla e heterogénea. Como se viu em mudanças rápidas de posição em matérias laborais ou fiscais, o posicionamento do partido revela frequentemente uma adaptação ao clima político mais do que uma linha programática consistente. Essa plasticidade não é acidental: é parte integrante de uma estratégia que privilegia a captação de descontentamento em detrimento da coerência doutrinária.
Ainda assim, reduzir o fenómeno a puro oportunismo seria insuficiente. Existe um núcleo relativamente estável: a centralidade da ordem, da punição e da crítica às elites políticas e institucionais. É esse núcleo que confere alguma continuidade ao discurso e permite a sua identificação no espaço político. Mas a forma como esse núcleo se traduz em propostas concretas varia significativamente consoante o momento e a oportunidade.
As propostas de revisão constitucional apresentadas pelo partido ajudam a ilustrar esta tensão. Por um lado, incluem medidas que podem ter impacto estrutural — desde alterações ao papel do Estado social até tentativas de revisão de limites constitucionais fundamentais. Por outro, estas iniciativas coexistem com um discurso altamente volátil, frequentemente centrado em temas de forte carga mediática e emocional. A combinação sugere não tanto uma visão sistemática de reorganização do regime, mas uma articulação entre ambição institucional e mobilização tática.
Neste sentido, o iliberalismo não desaparece por ser instrumental. Pelo contrário, pode tornar-se mais difuso e difícil de delimitar. Quando não está ancorado numa doutrina rígida, adapta-se com maior facilidade, infiltra-se em diferentes registos discursivos e ajusta-se às variações do clima político. A sua eficácia política reside precisamente nessa capacidade de mutação.
O contraste com outros contextos europeus ajuda a clarificar esta diferença. Em casos como o de Giorgia Meloni, é possível identificar uma matriz ideológica mais consistente, onde elementos iliberais se inserem num quadro político relativamente estável — ainda que sujeito a moderação no exercício do poder. Aqui, a questão não é a ausência de estratégia, mas a existência de uma identidade que a precede e a orienta.
No caso português, a relação parece invertida. A estratégia antecede frequentemente a ideologia, moldando-a e redefinindo-a conforme o contexto. O resultado é uma forma de política menos previsível, menos ancorada e mais dependente da exploração de janelas de oportunidade — sejam elas mediáticas, eleitorais ou institucionais.
Isto tem implicações relevantes. Numa democracia liberal, a previsibilidade não é um luxo: é uma condição para a responsabilização política. Quando as posições se tornam excessivamente voláteis, torna-se mais difícil avaliar compromissos, escrutinar decisões e compreender a direção de um projeto político. A política aproxima-se, assim, de uma lógica de reação permanente, onde a consistência cede lugar à eficácia imediata.
Ao mesmo tempo, o fenómeno não pode ser analisado isoladamente. A erosão da mediação — isto é, da capacidade dos representantes políticos de agregarem interesses e produzirem deliberação racional — atravessa diferentes campos ideológicos. A política identitária, à esquerda e à direita, e o populismo de várias naturezas partilham uma tendência comum: substituir a mediação pela expressão direta de identidades, emoções e ressentimentos. É nesse terreno que diferentes formas de iliberalismo podem convergir, ainda que partindo de premissas distintas.
Reduzir o fenómeno a uma etiqueta — seja “fascismo”, “populismo” ou outra — pode ser politicamente eficaz, mas analiticamente limitado. O que está em causa é menos a classificação do que a compreensão dos mecanismos. E, nesse plano, a hipótese de um iliberalismo instrumental oferece uma chave de leitura mais exigente: permite reconhecer os riscos sem os simplificar, identificar padrões sem os congelar e analisar o fenómeno na sua dinâmica real.
No fim, a questão não é apenas o que este tipo de projeto político é, mas aquilo que revela sobre o estado da própria democracia: quando a estratégia se sobrepõe à identidade, a política deixa de ser um projeto de longo prazo e transforma-se num exercício de eficácia imediata, onde a responsabilidade pública tende a recuar.
referências
Fascismo e oportunismo: as duas faces do Chega, Miguel Romão – DN
Selling fear: André Ventura, Chega and the making of Portugal’s far-right, Farid Hafez, Euobserver
Chega: extrema-direita ou populismo de direita radical?, Bruno Faria Lopes