Durante muito tempo, a posição parecia relativamente clara: reconhecer o direito de Israel a existir, enquanto se defendia, com igual convicção, o direito dos palestinianos à autodeterminação. Essa simetria não era apenas moral — era também a base de qualquer solução política credível, nomeadamente a hipótese de dois Estados.
Hoje, essa posição está sob cerco de factos consumados.
O ataque de 7 de outubro, levado a cabo pelo Hamas, foi um crime grave e justificou uma resposta. Israel tem direito à autodefesa. Ignorar isso seria negar um princípio básico das relações internacionais. Mas a questão deslocou-se do direito à resposta para a natureza da sua execução. Entre a legitimidade da ação e os seus efeitos abriu-se uma distância que já não pode ser ignorada. O problema deixou de ser apenas o que Israel faz — e passou a ser o que essa ação torna possível.
Mais do que a dimensão militar, o que se observa é uma transformação estrutural.
No terreno, a destruição em Gaza e a contínua fragmentação da Cisjordânia não são apenas consequências do conflito: estão a criar uma irreversibilidade geográfica que asfixia a viabilidade de um Estado palestiniano. Ao mesmo tempo, assiste-se à erosão de uma linha vermelha. O que antes era impensável — deslocações massivas de população, reconfigurações territoriais totais — entrou no espaço do debate político. Não como retórica marginal, mas como hipótese discutida. É a normalização do extremo. O alargamento da chamada janela de Overton: o que ontem era barbárie, hoje surge como cenário de trabalho.
Esta mudança não é apenas política. É também ideológica.
A crescente influência de correntes messiânicas e ultranacionalistas dentro das estruturas do Estado israelita, incluindo o exército, aponta para uma transformação mais profunda. Trata-se de uma visão que funde território e destino, e que tende a interpretar o conflito em termos absolutos. A distinção entre combatente e civil torna-se mais difusa. Quando a ideia de que “não há inocentes” entra no discurso — e, mais grave, na prática institucional — a guerra deixa de ser um instrumento e passa a ser um fim em si mesma.
Mas esta radicalização não existe no vazio. Alimenta-se — e alimenta — o outro lado.
A ausência prolongada de uma solução política credível tem funcionado como catalisador de formas cada vez mais extremas de religião também entre os palestinianos, nomeadamente através do Hamas. O fundamentalismo de um lado torna-se o oxigénio do outro. O que era um conflito de fronteiras — potencialmente resolvível com mapas — transforma-se num conflito de existências, onde a vitória de um implica a negação do outro. É aqui que a política cede lugar à sacralização — e, com ela, desaparece a possibilidade de compromisso.
Este é o verdadeiro ponto de viragem: quando um conflito deixa de ser político, deixa de ser negociável.
A solução de dois Estados assentava na ideia de compromisso territorial. Mas compromisso exige limites — e a aceitação de que o outro também tem direito a existir. Quando o território se torna absoluto e a identidade não negociável, essa base colapsa. O que emerge não é uma solução alternativa, mas um impasse estrutural.
Neste contexto, a equidistância deixa de ser necessariamente sinal de ponderação. Ser objetivo não é ignorar assimetrias de poder nem a irreversibilidade das ações no terreno. Há momentos em que colocar todos os atores ao mesmo nível analítico não esclarece — obscurece. A neutralidade mal aplicada pode transformar-se numa forma de cegueira. Quando ignora a erosão sistemática das condições de sobrevivência de uma das partes, deixa de ser ética para se tornar meramente burocrática
O problema já não é apenas o que está a acontecer no terreno. É o que passou a ser possível — e aceitável — imaginar como solução.
E talvez a questão mais incómoda seja esta: estará o mundo preparado para lidar com um conflito que já não procura ser resolvido, mas vencido?
Referências e créditos
How a messianic movement is changing the Israeli military
Nearly half of Jewish Israelis want to expel Arabs, survey shows