A excepção como rotina: o que a crise israelita nos diz sobre a erosão democrática

Paulo Trindade

Maio 19, 2026

Há crises políticas que se anunciam através de ruturas abruptas. Outras avançam lentamente, quase por desgaste, deslocando progressivamente os limites do aceitável até que a exceção se torne rotina. A reportagem “Benjamin Netanyahu’s War at Home”, publicada na The New Yorker, sugere que Israel parece já ter entrado precisamente nesse segundo território: não o da suspensão formal da democracia, mas o do enfraquecimento gradual das estruturas que a sustentam.

O episódio aparentemente menor do kippah com as bandeiras israelita e palestiniana funciona, no texto, como mais do que um incidente isolado. Um homem sentado num café acaba por ser temporariamente detido, não por violência ou ameaça concreta, mas porque um símbolo passou a ser interpretado como provocação política. O detalhe importa porque revela uma mudança mais profunda: a transformação de conflitos políticos em conflitos identitários fechados, onde a ambiguidade deixa de ser tolerada e onde a própria coexistência simbólica se torna suspeita.

A reportagem de Bernard Avishai constrói, a partir desse episódio, uma leitura mais ampla sobre a evolução recente do sistema político israelita. Polícia, tribunais, procuradoria, universidades, media públicos e sistema eleitoral surgem ligados por uma mesma tensão: a disputa sobre quem controla as regras do próprio regime democrático. A questão já não parece ser apenas a orientação ideológica do governo de Benjamin Netanyahu, mas a tentativa de redefinir o equilíbrio entre poder político e instituições de fiscalização.

Israel não é caso isolado. Em diferentes contextos — da Hungria à Turquia, passando por sectores da política norte-americana e europeia — cresce a tendência para transformar divergência política em conflito identitário permanente, onde tribunais, imprensa ou órgãos eleitorais deixam de ser vistos como instituições comuns e passam a ser percebidos como instrumentos de um campo adversário.

É precisamente aqui que o texto se aproxima de debates contemporâneos sobre formas de erosão democrática. Em vários países, a fragilização institucional raramente começa pela abolição imediata das eleições ou pela supressão explícita das liberdades formais. Começa antes por processos mais subtis: descredibilização dos tribunais, politização das forças de segurança, pressão sobre órgãos reguladores, hostilidade perante media independentes e construção permanente da ideia de “inimigos internos”. A democracia mantém os seus rituais, mas vai perdendo parte da sua substância.

No caso israelita, o contexto de guerra torna esta dinâmica ainda mais complexa. O 7 de Outubro não foi apenas um trauma abstracto, mas o maior massacre de judeus desde o Holocausto, num contexto em que continuam activos actores armados como o Hamas, o Hezbollah e o Irão. A prolongada mobilização militar, a existência de reféns em Gaza e a sensação de ameaça permanente criaram um ambiente onde a linguagem da segurança tende a expandir-se para lá do campo militar. A exceção torna-se mais facilmente justificável. O dissenso passa a ser lido, por setores políticos, mediáticos e institucionais, não apenas como divergência legítima, mas como fragilidade moral ou risco existencial.

O texto da Chatham House sobre as eleições israelitas de 2026 reforça essa leitura ao mostrar uma sociedade cada vez mais fragmentada em torno do próprio contrato social. O debate sobre a conscrição dos ultraortodoxos — tema antigo de desigualdade cívica e militar em Israel —, a instrumentalização política do trauma do 7 de Outubro e a crescente centralidade da Cisjordânia, patente na expansão territorial e na violência documentada por organizações de direitos humanos como a B’Tselem, revelam um país onde a guerra já não produz automaticamente consenso nacional. A própria sobrevivência da coligação governamental parece depender de equilíbrios identitários e setoriais cada vez mais frágeis.

Ainda assim, seria precipitado concluir que Israel atravessou definitivamente a fronteira para um modelo iliberal consolidado. A própria intensidade do conflito institucional mostra que continuam a existir resistências significativas dentro da sociedade israelita: tribunais que bloqueiam medidas do executivo, manifestações massivas, imprensa crítica, alternância política ainda possível e setores académicos e civis que recusam a normalização dessa deriva. A crise talvez esteja menos na ausência de democracia e mais na disputa sobre o significado que ela deverá ter no futuro.

Nesse sentido, o debate ultrapassa largamente as fronteiras de Israel. O que está em causa não é apenas a estabilidade de um governo ou o destino político de Netanyahu, mas uma questão mais ampla e contemporânea: o que acontece quando instituições democráticas permanecem formalmente intactas, mas começam a perder legitimidade pública? A verdadeira erosão democrática começa quando uma parte da sociedade deixa de ver a outra como adversária política legítima e passa a encará-la como ameaça existencial.


Referências e créditos

Bernard Avishai, “Benjamin Netanyahu’s War at Home”, The New Yorker, 18 de Maio de 2026.

Ksenia Svetlova, “Israel in 2026: Elections will be a referendum on the legacy of 7 October – and the future of the social contract”, Chatham House, 21 de Janeiro de 2026.

B’Tselem – The Israeli Information Center for Human Rights in the Occupied Territories, documentação sobre violência de colonos e expansão territorial na Cisjordânia.

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