A Alemanha deixou de ser previsível — e isso muda a Europa

Paulo Trindade

Maio 6, 2026

Friedrich Merz chega ao primeiro aniversário como chanceler com números frágeis, uma coligação em tensão e uma imagem pública degradada, num momento em que a AfD cresce e o centro político alemão perde capacidade de agregação. Mas o essencial não é apenas o desgaste pessoal de Merz: o que o seu primeiro ano no poder expõe é a erosão do modelo político, económico e estratégico que durante décadas fez da Alemanha a principal âncora de estabilidade da Europa.

O dado mais visível é a impopularidade. Segundo os números citados pelo PÚBLICO, apenas 20% dos inquiridos fazem uma avaliação positiva do trabalho de Merz, enquanto 78% o avaliam negativamente. Mais de metade dos inquiridos, segundo outra sondagem mencionada no mesmo artigo, não acredita que o Governo sobreviva até ao fim da legislatura, em 2029. Em paralelo, a AfD aparece à frente da CDU em várias sondagens, com 27,5% das intenções de voto, contra 24% para os democratas-cristãos e 13,5% para o SPD.

Estes números seriam suficientes para descrever um chanceler em dificuldade. Mas reduzi-los a um problema de estilo, personalidade ou falha de comunicação seria simplificar em excesso. Merz cometeu erros que agravaram a sua fragilidade pública: a forma como respondeu a uma cidadã gravemente doente num encontro aberto e, depois, a sua formulação sobre Donald Trump, que desencadeou nova controvérsia, mostraram falta de sensibilidade política e de disciplina retórica. Ainda assim, o problema não começa nem acaba nele. Merz governa num momento em que a Alemanha deixou de ser previsível.

Durante anos, a força alemã esteve menos no dramatismo da sua liderança do que na regularidade do seu sistema. Angela Merkel simbolizou essa fase: prudência, gestão incremental de crises, capacidade de compromisso e uma autoridade sem excesso de teatralidade. A Alemanha era vista como o país que segurava o centro europeu, mesmo quando o resto do continente oscilava entre choques financeiros, crises migratórias ou sobressaltos geopolíticos. Esse país continua a existir institucionalmente, mas perdeu parte da sua base material e política.

A crise atual nasce da erosão simultânea de quatro pilares:

Energia: o fim do acesso à energia russa barata, que sustentava parte da competitividade industrial alemã.

Exportações: a desaceleração chinesa e a nova competição industrial global, que fragilizaram o modelo mercantilista alemão.

Segurança: a pressão crescente sobre a garantia de proteção militar americana e o regresso do unilateralismo transacional de Trump.

Estabilidade interna: a erosão do centro político, acompanhada pelo crescimento da AfD e pela fragmentação partidária.

A guerra na Ucrânia atingiu o pressuposto energético. A desaceleração chinesa e a nova competição industrial global atingiram o pressuposto exportador. O regresso de Donald Trump colocou nova pressão sobre a dependência estratégica europeia em relação aos Estados Unidos. E o crescimento da AfD, acompanhado por maior fragmentação partidária, atingiu o pressuposto de estabilidade interna que durante tanto tempo distinguiu a Alemanha. O resultado é uma crise que não é apenas eleitoral nem apenas comunicacional. É estrutural.

É por isso que o primeiro ano de Merz deve ser lido como sintoma. O artigo do PÚBLICO mostra uma coligação com pouco em comum, atravessada por crises internas e internacionais, tentando produzir compromissos tardios em áreas como energia e saúde. Segundo os politólogos citados, CDU/CSU e SPD movem-se sob lógicas diferentes: os democratas-cristãos deslocaram-se para a direita, enquanto os sociais-democratas procuram reafirmar a sua identidade de justiça social. O surpreendente, nessa perspetiva, não é tanto a descoordenação; é que o Governo ainda consiga produzir algum acordo.

Mas em política, sobretudo em períodos de ansiedade social, não basta governar tecnicamente. É preciso transmitir direção. E é aqui que a discussão sobre liderança se torna importante. A pergunta não deve ser se à Alemanha falta um líder mais carismático no sentido superficial do termo. A pergunta mais séria é se falta à Alemanha — e, por arrastamento, à Europa — uma liderança capaz de devolver coerência, confiança e legibilidade política a um momento histórico mais competitivo e instável.

O crescimento dos populistas torna essa questão inevitável. Quando o centro parece defensivo, dividido ou incapaz de falar ao mesmo tempo de segurança, prosperidade e pertença, os partidos anti-establishment ganham vantagem simbólica. A AfD prospera precisamente nesse terreno: o de uma sociedade mais polarizada, mais ansiosa e menos convencida de que os partidos tradicionais conseguem proteger o nível de vida, controlar a imigração ou dar sentido estratégico ao país. Não é por acaso que as eleições regionais do Leste são vistas como um teste de alto risco, com a possibilidade de a AfD vir a governar um estado federado e ganhar peso institucional no Bundesrat.

Nesse contexto, a comparação com Emmanuel Macron ajuda a clarificar o problema europeu. Macron parece hoje ter mais clareza estratégica do que a maioria dos líderes europeus quando fala de autonomia, defesa e poder geopolítico. A França percebeu mais cedo que a Europa já não pode viver sob a ilusão de uma proteção americana automática e de uma ordem internacional estável. Mas a França, sozinha, não tem massa suficiente para reorganizar a União. Falta-lhe a escala económica, industrial e institucional da Alemanha.

É aqui que o bloqueio europeu se torna mais visível. Macron formula; Berlim hesita. A França oferece visão estratégica. A Alemanha continua indispensável para transformar essa visão em política europeia, mas chega dividida ao momento em que mais precisava de transmitir estabilidade. Sem uma Alemanha funcional, a União Europeia perde capacidade de coordenação em defesa, indústria, energia e tecnologia. Sem uma França estrategicamente ativa, perde imaginação política. A Europa precisa, em simultâneo, de visão francesa e de capacidade institucional alemã.

O problema é que essa dupla, hoje, não está verdadeiramente sincronizada. Macron fala a partir de uma tradição de soberania estratégica e de poder presidencial. A Alemanha fala a partir de uma cultura política de contenção, compromisso e prudência. Durante décadas, essa diferença foi complementar. Agora pode tornar-se fonte de desencontro, precisamente quando a pressão externa aumenta. Trump, com a sua linguagem de força e a sua visão transacional das alianças, obriga a Europa a responder mais depressa do que o seu próprio método político costuma permitir.

A polémica entre Merz e Trump é reveladora desse novo ambiente. Segundo o relato do PÚBLICO, Trump reagiu às declarações de Merz e anunciou depois a retirada de cinco mil militares da Alemanha, além de não enviar os mísseis Tomahawk que eram esperados. Mesmo admitindo que essas decisões estivessem já em preparação, o episódio mostrou duas coisas: primeiro, que a relação transatlântica entrou numa fase de maior volatilidade; segundo, que uma liderança europeia sem densidade política interna paga mais caro cada erro de linguagem.

É por isso que a discussão sobre carisma deve ser usada com cuidado. Um líder mais carismático pode comunicar melhor, mobilizar mais facilmente e enfrentar com maior eficácia a disputa simbólica com os populistas. Mas carisma sem estrutura esgota-se depressa. O que a Alemanha perdeu não foi apenas capacidade retórica; foi a sensação de que o seu sistema ainda produz ordem, previsibilidade e futuro. E o que a Europa perdeu com isso foi a sua principal reserva de estabilidade.

No fundo, talvez a pergunta central não seja se faltam líderes fortes. Talvez a questão mais importante seja outra: estará o centro democrático europeu ainda em condições de produzir confiança coletiva num tempo de fragmentação social, competição geopolítica e ansiedade económica? A crise alemã sugere que essa capacidade já não pode ser tomada por garantida.

Merz é, nesse sentido, menos a exceção do que o espelho. A sua impopularidade, a fragilidade da sua coligação e a dificuldade em afirmar autoridade mostram o que acontece quando um país habituado a oferecer estabilidade entra ele próprio num período de transição estratégica. A Alemanha não deixou de ser central para a Europa. Mas deixou de ser automaticamente tranquilizadora.


Créditos

imagem de destaque – Wikimedia Commons

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