A economia que não consegue substituir os imigrantes
Há hoje setores inteiros da economia portuguesa cuja capacidade de operação ficaria severamente comprometida sem trabalhadores estrangeiros. Agricultura, construção, hotelaria, logística, restauração ou cuidados dependem já de forma estrutural de mão de obra migrante. Ainda assim, grande parte do debate público continua a tratar a imigração sobretudo como uma questão identitária, cultural ou conjuntural.
Mas existe uma dimensão mais profunda — e bastante menos discutida: o que acontece quando economias envelhecidas deixam subitamente de ter acesso a trabalhadores migrantes pouco qualificados?
A resposta começou a surgir de forma inesperada durante a pandemia. Na Coreia do Sul, a interrupção da entrada de trabalhadores estrangeiros criou aquilo que os economistas chamam uma “experiência natural”. Pela primeira vez, foi possível observar em grande escala o impacto económico concreto de uma quebra abrupta na imigração laboral.
O resultado contrariou muitas das ideias simplistas que dominam o debate público.
Estudos recentes sobre o sistema EPS de trabalhadores migrantes na Coreia do Sul mostraram que as empresas mais dependentes desta mão de obra sofreram maiores reduções de produção, aumento de encerramentos e fortes dificuldades de substituição. Em muitos casos, trabalhadores nacionais não aceitaram os mesmos empregos nas mesmas condições ou não possuíam o perfil procurado pelas empresas. O problema sul-coreano não resultou apenas de custos salariais. Existia também um desfasamento estrutural entre as necessidades das empresas e a disponibilidade real de trabalhadores nacionais para determinadas funções, seja por condições de trabalho, expectativas profissionais ou perfil de competências. Em vez disso, surgiram atrasos produtivos, quebra de receitas, perturbações operacionais e encerramento de empresas. Em vários casos, os próprios trabalhadores coreanos acabaram deslocados para tarefas menos qualificadas, reduzindo especialização e eficiência económica.
O mais surpreendente no caso sul-coreano não foi a existência de dependência migratória, mas o facto de ela surgir numa das economias mais avançadas do planeta. A Coreia do Sul é altamente industrializada, tecnologicamente sofisticada e fortemente automatizada. Ainda assim, revelou dificuldade séria em substituir rapidamente trabalhadores estrangeiros pouco qualificados.
Isso deveria obrigar a repensar algumas simplificações recorrentes no debate português.
Existe frequentemente a ideia de que, se a imigração diminuir, os trabalhadores nacionais ocuparão naturalmente esses lugares e os salários subirão automaticamente. Na prática, as economias modernas funcionam de forma mais complexa. Muitos setores dependem de estruturas laborais segmentadas, onde trabalhadores migrantes ocupam funções que sustentam o funcionamento global da atividade económica.
Quando essa base desaparece, o resultado nem sempre é substituição. Muitas vezes é retração.
Portugal oferece um exemplo particularmente vulnerável deste fenómeno. O país combina envelhecimento demográfico acelerado, baixa produtividade média e um tecido empresarial dominado por pequenas e microempresas, características que dificultam adaptação rápida a choques no mercado de trabalho.
Nas últimas décadas, a economia portuguesa consolidou-se em torno de setores intensivos em mão de obra: turismo, agricultura, construção, logística, restauração, serviços e cuidados. Ao mesmo tempo, manteve baixos níveis médios de produtividade, reduzida capacidade de investimento e um tecido empresarial extremamente fragmentado, dominado por pequenas e microempresas.
Essa estrutura económica produz uma consequência inevitável: dificuldade em absorver aumentos salariais significativos e incapacidade de substituir rapidamente trabalho humano por automação.
Economias dominadas por micro e pequenas empresas tendem a ter menor capacidade de investimento, menor absorção tecnológica e reduzida margem para reorganização produtiva rápida. Isso significa que a escassez de mão de obra não conduz automaticamente à automação ou à subida salarial sustentada. Muitas vezes conduz primeiro à retração da atividade, perda de competitividade ou encerramento de empresas.
Em teoria, a escassez de trabalhadores deveria pressionar salários em alta e acelerar transformação produtiva. Na prática, muitas empresas portuguesas operam com margens demasiado reduzidas para fazer essa transição de forma rápida. O resultado é uma crescente dependência de trabalhadores estrangeiros para manter setores inteiros operacionais.
A construção civil estima precisar de dezenas de milhares de trabalhadores adicionais. A agricultura intensiva depende fortemente de mão de obra migrante sazonal. O turismo funciona hoje com forte presença de trabalhadores estrangeiros em áreas como hotelaria, limpeza, logística e restauração. Nos cuidados a idosos, a dependência tornou-se silenciosamente estrutural.
Nos últimos anos, deixou de ser apenas o Estado a reconhecer esta realidade. Setores como hotelaria, agricultura e construção passaram a pressionar publicamente por mecanismos mais rápidos e previsíveis de entrada de trabalhadores estrangeiros. O que antes surgia como resposta conjuntural começa a assumir características permanentes. A imigração deixou de ser um mecanismo temporário de compensação; tornou-se parte integrante da própria estrutura económica, com determinados setores a operarem já com expectativa implícita de continuidade migratória.
Também importa reconhecer que “imigração” não é uma categoria homogénea. Portugal recebe hoje perfis migratórios muito distintos — desde trabalhadores altamente qualificados até mão de obra sazonal em setores intensivos em trabalho. A sustentabilidade económica e social destes fluxos depende não apenas da quantidade, mas também da capacidade de integração laboral, habitacional e institucional.
Num contexto de envelhecimento acelerado, a imigração contribui igualmente para aliviar pressões demográficas e fiscais no curto e médio prazo, particularmente através da entrada de população ativa contribuinte. Mas esses efeitos dependem da integração efetiva no mercado de trabalho formal e da capacidade de retenção no país.
Isso ajuda também a explicar a criação das chamadas “vias verdes” para imigração laboral regulada. O mecanismo procura acelerar recrutamento internacional através de contratos prévios e processos administrativos simplificados. Mais do que uma política conjuntural, representa um reconhecimento implícito do próprio Estado: a economia portuguesa precisa de imigração para continuar a funcionar nos moldes atuais.
Mas aqui emerge uma contradição difícil.
Portugal necessita objetivamente de imigração. Ao mesmo tempo, essa necessidade resulta em parte de um modelo económico que continua excessivamente dependente de baixos salários, reduzida escala empresarial e limitada sofisticação produtiva.
Seria simplista ignorar que abundância de mão de obra pode limitar pressão salarial em determinados setores. A evidência internacional sugere que imigração pouco qualificada pode exercer pressão limitada nos segmentos mais baixos do mercado de trabalho. Mas seria igualmente simplista atribuir os baixos salários portugueses apenas à imigração, ignorando décadas de baixa produtividade, reduzida escala empresarial e especialização em atividades de menor valor acrescentado.
Em muitos casos, a imigração não é a causa principal das fragilidades estruturais da economia portuguesa. É precisamente o mecanismo que impede que essas fragilidades se transformem numa crise mais visível.
Em certo sentido, a imigração funciona hoje como um balão de oxigénio para partes importantes do modelo económico português. Mantém operacional uma estrutura produtiva que, sem essa disponibilidade de mão de obra, seria provavelmente forçada a transformar-se de forma mais abrupta — ou a entrar em retração.
Existe aqui um problema de tempo económico.
A transformação estrutural da economia é lenta. Exige capitalização empresarial, ganho de escala, investimento tecnológico, aumento de produtividade e reorganização produtiva. Mas o envelhecimento demográfico, a baixa natalidade e a escassez de mão de obra avançam muito mais rapidamente.
A imigração surge precisamente nesse intervalo — como solução parcial, imperfeita e imediata.
Isso não significa que a dependência atual seja sustentável ou desejável a longo prazo. Uma economia incapaz de aumentar produtividade, ganhar escala e criar maior valor acrescentado tenderá a permanecer presa numa lógica de crescimento assente em trabalho abundante e relativamente barato.
Mas também significa que certas soluções simplistas ignoram custos reais.
Num país envelhecido, com baixa natalidade, forte emigração qualificada e escassez crescente de mão de obra em vários setores, a ideia de que bastaria reduzir imigração para resolver problemas salariais ou sociais revela uma compreensão limitada do funcionamento económico contemporâneo.
A experiência sul-coreana mostra precisamente o contrário: quando trabalhadores migrantes desaparecem abruptamente, muitas economias não se reorganizam rapidamente — entram em tensão.
Portugal parece viver hoje entre dois modelos económicos: um que já não consegue funcionar apenas com mão de obra nacional e outro que ainda não ganhou produtividade, escala e sofisticação suficientes para depender menos de trabalho intensivo.
A economia portuguesa precisa hoje de imigração para manter setores essenciais operacionais, mas continua simultaneamente demasiado frágil, fragmentada e pouco produtiva para depender menos de trabalho abundante e mais de ganhos estruturais de produtividade.
Referências
Lee, Peri & Yang — “The Effects of a Sudden Stop in Low-Skilled Immigration: Evidence from Korea’s Guest Worker Program” (NBER)
“When Migrant Workers Disappeared, Korean Firms and Workers Struggled” (ProMarket)
“Via verde: um ano depois há mais trabalhadores estrangeiros. O problema? Não chegam” (RH Magazine)
“É preciso escalar as empresas para fazer crescer o país” (ECO)