Há momentos na vida democrática de um país que funcionam como testes. Não são, à partida, momentos grandiosos nem dramáticos. Surgem, muitas vezes, sob a forma de um caso policial, de uma investigação judicial, de uma notícia incómoda. A forma como a sociedade reage a esses momentos diz-nos mais sobre o seu estado de saúde do que muitos discursos oficiais.
A chamada Operação Irmandade, envolvendo membros de um grupo neonazi com ligações ao Chega, foi um desses testes. Não apenas pelo que revelou sobre a existência de redes extremistas organizadas em Portugal, mas sobretudo pela forma como foi recebida: com algum ruído inicial, seguido de um rápido processo de normalização e esquecimento.
Não foi apenas mais um caso policial. Foi um teste à maturidade democrática.
Não é fascismo clássico — é iliberalismo
Convém, desde logo, fazer uma distinção essencial. Os partidos da direita radical contemporânea não são, na maioria dos casos, fascistas no sentido histórico do termo. Não estamos na Europa dos anos 20 e 30. Não há, pelo menos por agora, partidos-milícia institucionalizados, projetos explícitos de ditadura ou rejeições formais da democracia eleitoral.
O que existe é outra coisa: um iliberalismo político que aceita as regras do jogo apenas enquanto estas lhe são úteis.
Estes movimentos caracterizam-se por uma hostilidade persistente às instituições independentes, pelo desprezo pelo pluralismo, pelo ataque sistemático à imprensa, pelo personalismo em torno do líder e pela redução da política a uma lógica amigo-inimigo. Não rejeitam formalmente a democracia, mas esvaziam-na por dentro.
Não são fascistas no sentido histórico. Mas partilham com o fascismo a mesma gramática emocional: o medo, o ressentimento, a desconfiança, a procura de bodes expiatórios, a promessa de ordem num mundo percecionado como caótico.
Afinidades perigosas
É neste plano simbólico e cultural que surgem as afinidades mais preocupantes.
A retórica dos “portugueses de bem”, dos “inimigos internos”, da “corrupção do sistema”, dos “traidores da pátria” não é inocente. Constrói uma narrativa onde a complexidade desaparece e onde a política se transforma num combate moral absoluto.
A isso soma-se um estilo agressivo, polarizador, permanentemente vitimista, que deslegitima adversários e transforma qualquer crítica numa conspiração. O espaço público degrada-se. O debate empobrece. A confiança institucional erode-se.
Não é preciso defender explicitamente a violência para a tornar possível. Basta criar um ambiente onde ela passa a parecer compreensível.
Quem se sente em casa
Um partido não é apenas aquilo que escreve nos seus programas ou proclama nos seus comícios. É também o tipo de pessoas que atrai, acolhe e tolera.
Quando grupos extremistas, militantes radicalizados ou indivíduos com historial de violência política se aproximam repetidamente de uma força partidária, isso não pode ser sistematicamente explicado como “casos isolados” ou “infiltrações ocasionais”. Há ali um reconhecimento implícito. Um sentimento de pertença. Uma perceção de afinidade.
Essas pessoas não surgem por acaso. Surgem porque sentem que ali encontram um espaço onde não são rejeitadas, onde não são frontalmente confrontadas, onde a sua presença não constitui um problema político sério.
Um partido revela-se tanto pelo que afirma como pelo que tolera.
A violência como Sintoma
A violência política não nasce no vazio. Não é um acidente inexplicável nem o produto exclusivo de “indivíduos perturbados”. É, quase sempre, o resultado de processos acumulados: desumanização, radicalização discursiva, legitimação implícita, sensação de impunidade.
Quando o discurso político se habitua a dividir a sociedade entre “bons” e “maus”, quando transforma adversários em ameaças existenciais, quando normaliza a suspeita e o ódio, cria-se o terreno onde a violência germina.
Os exemplos europeus mostram-no com clareza. Da Alemanha a Espanha, passando por outros contextos, observa-se a mesma sequência: radicalização retórica, deslegitimação institucional, surgimento de grupos organizados, intimidação, ataques, normalização.
Quando a política perde limites, a rua acaba por perder os seus.
O silêncio como estratégia
Perante estes fenómenos, a resposta de muitas lideranças iliberais é previsível: o silêncio calculado.
Não condenam de forma clara. Não se demarcam inequivocamente. Não rompem com os extremistas. Preferem a ambiguidade. A relativização. A fuga.
Esse silêncio não é neutralidade. É uma escolha.
É o resultado de um cálculo eleitoral: condenar pode custar votos; tolerar pode preservá-los. A ambiguidade torna-se funcional. Permite manter uma base radicalizada sem afastar completamente o eleitorado moderado.
Mas esse jogo tem um preço. E o preço é pago pela qualidade da democracia.
A responsabilidade do centro
Seria cómodo atribuir toda a responsabilidade aos partidos radicais. Mas isso seria incompleto.
A erosão democrática raramente começa nos extremos. Começa no centro, por cedência.
Começa quando forças moderadas relativizam, normalizam, fazem contas aritméticas, aceitam acordos táticos, adiam linhas vermelhas. Começa quando se acredita que é possível “usar” o radicalismo sem ser contaminado por ele.
A história mostra repetidamente que essa estratégia falha.
O iliberalismo não avança apenas pela força própria. Avança pela complacência alheia.
A fronteira invisível
As democracias não colapsam de um dia para o outro. Não desaparecem num golpe espetacular. Desgastam-se. Enfraquecem. Habituam-se.
Habituam-se ao discurso agressivo. Ao desprezo pelas regras. À banalização do ódio. À presença de extremistas. Ao silêncio cúmplice. À erosão lenta das normas.
O problema não é existirem partidos iliberais numa sociedade plural. Isso faz parte do jogo democrático. O problema começa quando passamos a viver confortavelmente com isso. Quando deixamos de nos inquietar. Quando transformamos sinais de alarme em ruído de fundo.
A violência que hoje nos choca é, muitas vezes, apenas o sintoma visível de um processo mais profundo que preferimos não ver.
Créditos, Referências e leituras complementares
Amílcar Correia, “Os neonazis também são portugueses de bem?“, Público
Bárbara Reis, “O silêncio de André Ventura sobre os neonazis do 1143“, Público
Ana Sá Lopes, “André Ventura e a Operação Irmandade: quem cala consente os neonazis“, Público
“Polícia alemã prende suspeitos de pertencerem a grupo neonazi que planeava uma revolução“, Público via Reuters
Hugo Franco, “Dois grupos neonazis participaram em ‘manif’ do Chega “contra a imigração descontrolada”“, Expresso
“Espancamentos filmados, invasões de casas e ataques em plena rua: o retrato da rede neonazi em Portugal“, SIC Notícias
Víctor Lopez, “El mapa de la violencia política: las izquierdas sufren nueve de cada diez ataques contra sedes de partidos en lo que va de legislatura“, Publico.es
Não é fascismo. É iliberalismo
Imagem de destaque – Grupo 1143 – Wikimedia