A Venezuela e o novo realismo: quando a estabilidade vale mais do que a democracia

Paulo Trindade

Janeiro 31, 2026

A tensão entre a administração Trump e María Corina Machado não é um incidente diplomático nem um mal-entendido circunstancial. É o reflexo de uma escolha política deliberada. Na Venezuela pós-Maduro, Washington optou por privilegiar a estabilidade, a previsibilidade e os interesses económicos em detrimento de uma transição democrática plena.

Durante anos, a narrativa oficial norte-americana justificou a pressão sobre o regime venezuelano em nome da democracia, dos direitos humanos e da autodeterminação. A queda de Nicolás Maduro parecia abrir uma janela histórica para uma mudança estrutural. Para muitos setores da oposição, e para observadores internacionais, esse momento representava a possibilidade de reconstruir instituições, restaurar a confiança pública e reintegrar o país no sistema democrático regional.

Essa expectativa durou pouco.

Rapidamente, a prioridade da Casa Branca passou da transformação política para a normalização económica. A nova liderança em Caracas, personificada por Delcy Rodríguez, foi avaliada não pelo seu compromisso com reformas democráticas, mas pela sua capacidade de garantir ordem, cumprir acordos e facilitar o acesso ao petróleo venezuelano. Quando Trump resume a estratégia com um “We take the oil”, está menos a provocar do que a esclarecer.

A Venezuela deixou de ser vista como uma sociedade a reconstruir. Passou a ser tratada como um ativo a gerir.

Neste contexto, María Corina Machado surge como uma figura paradoxal. É, simultaneamente, a principal referência moral da oposição e um problema para a estratégia americana. O seu capital político, construído em torno da resistência ao chavismo, do apoio popular e da vitória indireta nas eleições de 2024, confere-lhe uma legitimidade que nenhuma outra figura possui. Mas é precisamente essa legitimidade que a torna incómoda.

O regresso de Machado à Venezuela significaria mobilização, pressão social, exigência de reformas e imprevisibilidade. Representaria a reabertura do conflito político num momento em que Washington pretende estabilizar o país, atrair investimento e garantir fluxos energéticos. Para a Casa Branca, isso é um risco desnecessário.

Machado não é marginalizada por ser fraca. É marginalizada por ser forte.

A sua presença lembraria que a “normalização” em curso assenta num compromisso com um regime que mantém práticas autoritárias, redes clientelares e alianças geopolíticas ambíguas. Ao afastá-la, os Estados Unidos reduzem a pressão por mudanças reais e tornam mais confortável a convivência com um autoritarismo funcional.

É aqui que se revela a lógica mais profunda da política americana para a Venezuela: a substituição do ideal democrático por uma doutrina de governabilidade.

O objetivo deixou de ser a construção de instituições sólidas, independentes e legítimas. Passou a ser a manutenção de um sistema previsível, capaz de evitar colapsos, controlar tensões sociais e cumprir compromissos económicos. Desde que o regime funcione, o seu caráter deixa de ser central.

Este padrão não é novo. A história da política externa americana está repleta de alianças com regimes autoritários considerados “úteis”. A diferença atual é a franqueza com que essa opção é assumida. Já não é necessário invocar valores universais para justificar compromissos estratégicos. Basta falar de estabilidade.

No interior dos Estados Unidos, esta orientação está longe de ser consensual. Um artigo de John Hudson e Noah Robertson, no Washington Post, evidencia uma fratura clara entre o Executivo e setores do Congresso. Democratas e republicanos da Florida continuam a defender uma transição democrática efetiva e a apoiar Machado. Denunciam a substituição de um autoritarismo por outro e alertam para o carácter meramente tático da cooperação com Rodríguez.

Mas o poder decisório reside na Casa Branca e no Departamento de Estado. E aí prevalece o realismo económico.

A oposição venezuelana encontra-se, assim, num impasse. Tem legitimidade, apoio social e reconhecimento internacional. Não tem, porém, um patrocinador disposto a pagar o preço político de uma transição profunda. Sem essa proteção, torna-se vulnerável, fragmentada e facilmente neutralizável.

A estabilidade obtida por via administrativa e económica não resolve as causas profundas do colapso venezuelano: a corrupção, a captura do Estado, a ausência de justiça e a erosão institucional.

A curto prazo, o modelo pode funcionar. A economia pode recuperar parcialmente, o investimento pode regressar, o conflito pode ser contido. A médio prazo, porém, as tensões reaparecem. Sem mecanismos democráticos, sem alternância real e sem responsabilização, o sistema acumula frustrações que acabam por explodir.

Ao afastar María Corina Machado, Washington não está apenas a gerir um risco político. Está a sinalizar que a democracia é negociável.

A Venezuela torna-se, assim, um laboratório do novo realismo internacional: menos valores, mais recursos; menos princípios, mais previsibilidade. Um modelo que privilegia a eficiência imediata sobre a legitimidade duradoura.

No curto prazo, esta escolha pode parecer racional. No longo prazo, confirma um padrão recorrente: quando a estabilidade é construída sobre compromissos com o autoritarismo, ela é sempre provisória. E o preço acaba, inevitavelmente, por ser pago pelas sociedades que ficam presas entre regimes fechados e promessas abandonadas.

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