A erosão silenciosa do poder americano

Paulo Trindade

Fevereiro 2, 2026

Durante décadas, os Estados Unidos construíram a sua influência global não apenas com poder militar ou dimensão económica, mas com algo mais difícil de medir: previsibilidade. Aliados, investidores e parceiros sabiam, em linhas gerais, o que esperar de Washington. Essa confiança funcionava como um ativo invisível, mas decisivo.

Hoje, esse ativo está a ser corroído.

Duas leituras recentes — uma no New Yorker, outra no Washington Post — partem de registos diferentes, mas chegam à mesma conclusão: o principal problema da presidência de Donald Trump não é uma política económica específica. É a transformação da instabilidade em método de governo.

A sucessão de ameaças, recuos, anúncios improvisados e contradições públicas produziu um ambiente em que a política deixou de ser um fator de enquadramento e passou a ser uma fonte permanente de incerteza. O Estado, que deveria funcionar como âncora, tornou-se variável.

Nenhum dos textos fala em colapso. Pelo contrário. Ambos sublinham que o sistema ainda aguenta. O dólar continua central. Os mercados permanecem ligados aos Estados Unidos. As instituições, apesar de pressionadas, continuam de pé.

Mas é precisamente aqui que reside o ponto essencial: o que está em curso não é uma rutura súbita, é uma erosão lenta.

Investidores não fogem em massa. Protegem-se. Diversificam. Reduzem exposição. Governos não rompem alianças. Tornam-se mais cautelosos. Menos disponíveis. Menos confiantes. Nada disto gera manchetes dramáticas. Mas tudo contribui para um desgaste estrutural.

O poder, nas democracias modernas, não reside apenas na força. Reside na confiança. Na convicção de que as regras não mudam ao sabor do humor do líder. Na expectativa de que os compromissos assumidos hoje continuam válidos amanhã.

Quando essa expectativa desaparece, o sistema não colapsa. Enfraquece.

Há um paradoxo central no estilo de governação populista: quanto mais personalista é o poder, mais frágil se torna o Estado. Quando tudo depende da vontade de uma pessoa, tudo se torna imprevisível. E a imprevisibilidade é incompatível com liderança duradoura.

Trump governa como se a reputação institucional fosse descartável. Como se a credibilidade acumulada ao longo de décadas pudesse ser usada sem custo. Como se as consequências fossem sempre adiáveis.

Os dois artigos mostram que não são.

O mundo continua ligado aos Estados Unidos não por virtude, mas por inércia. Não porque confie plenamente, mas porque não tem alternativa imediata. Esse é um tipo de hegemonia frágil: resiste por falta de substituto, não por força própria.

A degradação do poder americano, se continuar, não virá sob a forma de um colapso espetacular. Virá como vieram tantas outras antes: através de pequenas ruturas, dúvidas acumuladas e compromissos esvaziados.

Quando jornais com culturas editoriais tão distintas convergem nesta leitura, vale a pena escutar. O que está em causa não é uma flutuação cambial. É a transformação da política numa fonte sistemática de instabilidade.

Um país pode ser rico, armado e tecnologicamente avançado — e, ainda assim, tornar-se frágil se deixar de ser previsível.

O que está em jogo não é apenas uma moeda.

É a credibilidade de um sistema.


Referências

The New Yorker: John Cassidy,

“How Trump Is Debasing the Dollar and Eroding U.S. Economic Dominance”

The Washington Post: David J. Lynch,

“Trump’s chaotic governing style is hurting the value of the U.S. dollar”

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