Grok é frequentemente criticado pelo tom, pelas respostas provocatórias ou pela permissividade face a discursos extremos. Mas essa crítica falha o essencial. O problema não está na ferramenta em si. Está na visão política que a molda — e no ecossistema onde foi criada.
Grok não é um desvio acidental no universo da inteligência artificial. É um produto coerente de um pensamento iliberal que desconfia de limites, despreza mediações e confunde liberdade com ausência de regras. Um pensamento que não elimina o poder — concentra-o.
Ao contrário de outras IAs, Grok nasce num espaço já marcado pela corrosão deliberada dos filtros do debate público. O X não é apenas uma plataforma “menos moderada”; é um ambiente onde o conflito é incentivado, a fricção é monetizada e o choque é tratado como virtude democrática. Colocar uma IA neste ecossistema não é neutro. É formativo.
A figura por detrás disto não é opaca. Elon Musk não esconde a sua visão do mundo: hostilidade às instituições, rejeição de mediações, desprezo por regras que não controla. Quando Grok não produz as respostas que lhe agradam, Musk intervém. Ajusta. Corrige. Reorienta. Nesse momento, qualquer ficção de neutralidade desaparece.
Uma IA moldada para agradar ao seu dono não é apenas enviesada — é disciplinada. Aprende que certas leituras são aceitáveis e outras penalizadas. Não por debate público, não por escrutínio democrático, mas por vontade soberana. Isto não é liberdade de expressão. É liberdade de emissão concentrada, sem contrapoder.

É quem controla o perímetro onde ela pensa.
O iliberalismo contemporâneo raramente se apresenta como censura explícita. Apresenta-se como libertação. Elimina filtros em nome da autenticidade, desvaloriza regras em nome da eficiência, rejeita instituições em nome do “bom senso”. Mas o resultado é previsível: um espaço público dominado por quem tem mais alcance, mais agressividade e mais controlo técnico.
Grok é a tradução desta lógica em software. Não proíbe. Não silencia formalmente. Enquadra. Decide o que é relevante, o que é ruído, o que merece amplificação. E fá-lo num ambiente onde o árbitro é também jogador.
O risco não está na rudeza da IA, nem no seu humor sarcástico. Está na normalização de um modelo onde tecnologia, poder e vontade individual se fundem sem mediação. Um modelo onde a complexidade democrática é tratada como obstáculo e não como valor.
O iliberalismo do século XXI não precisa de tanques nem de decretos.
Precisa apenas de plataformas, código — e da ideia sedutora de que limites são sempre inimigos da liberdade.
Grok não é um acidente.
É coerência ideológica tornada software.
Créditos:
Imagem de destaque de Mariia Shalabaieva