Quando o extremismo começa a parecer normal

Há palavras que não são apenas palavras. Trazem consigo uma história, uma visão do mundo e, muitas vezes, uma ideia sobre quem pertence a uma comunidade e quem deve ser visto como ameaça.

«Invasão» é uma dessas palavras. «Substituição» é outra, sobretudo quando aparecem associadas à ideia de uma «grande substituição». Quando são utilizadas para falar de migração, não descrevem apenas a chegada de pessoas a um território. Sugerem uma operação, uma agressão, um plano. Do outro lado já não estão indivíduos com histórias diferentes, mas uma massa organizada que avança para ocupar o lugar de alguém.

Durante muito tempo, este vocabulário pareceu pertencer inequivocamente à extrema-direita. Era a linguagem de grupos marginais, de movimentos abertamente xenófobos e de indivíduos que viam a Europa como vítima de uma conspiração demográfica e cultural. A sua associação a figuras como Anders Breivik tornou particularmente evidente a radicalidade de algumas dessas ideias.

Hoje, porém, algumas dessas expressões circulam em espaços políticos e sociais que continuam a apresentar-se como moderados, responsáveis e institucionais.

É esta mudança que me parece especialmente preocupante.

Não porque todos os que utilizam essas palavras tenham o mesmo pensamento ou defendam os mesmos meios. Não porque uma frase, isoladamente, permita concluir que um político partilha a ideologia ou a violência de um extremista. A questão é mais subtil e, por isso mesmo, mais importante: o que acontece quando uma linguagem que nasceu nos extremos começa a ser adotada pelo centro?

A normalização pela repetição

As ideias extremistas nem sempre chegam ao centro da sociedade apresentando-se como extremistas. Chegam frequentemente disfarçadas de bom senso, de coragem ou de simples descrição da realidade. São introduzidas como perguntas que «ninguém quer fazer», como palavras que «não se pode dizer» ou como verdades que os políticos tradicionais teriam medo de reconhecer.

A repetição faz o resto.

Uma expressão que inicialmente provoca repulsa começa por ser discutida. Depois, é relativizada. Em seguida, aparece num comentário televisivo, numa intervenção parlamentar ou numa publicação de alguém que se considera moderado. Por fim, torna-se banal. Já não se pergunta de onde veio nem que visão do mundo transporta. Pergunta-se apenas se será eficaz.

É assim que a linguagem muda o espaço político.

Não é necessário que toda a sociedade adote uma ideologia extremista. Basta que parte do seu vocabulário seja incorporada sem resistência. O conteúdo mais radical pode permanecer implícito enquanto a forma se torna respeitável.

Mas este processo não acontece apenas de cima para baixo. A política também capta sentimentos que já existem na sociedade. O discurso político nem sempre inventa a inquietação. Muitas vezes dá-lhe forma, vocabulário e, sobretudo, um responsável.

É aqui que a questão se torna mais complexa.

Portugal mudou muito rapidamente. Em 2015, o INE registava 383.759 cidadãos estrangeiros com estatuto legal de residente, equivalentes a 3,7% da população. Em 2024, a AIMA contabilizava já 1.543.697 cidadãos estrangeiros a residir em território nacional — um número que inclui não só quem tem título de residência válido, mas também quem aguarda decisão sobre processos de regularização em curso. Mesmo descontando essa diferença de critério, a ordem de grandeza da mudança é inequívoca.

Uma transformação dessa dimensão não pode deixar de produzir efeitos sociais, económicos e culturais. Também não pode deixar de produzir inquietações.

Algumas dessas preocupações podem ser exageradas. Outras podem estar assentes em perceções erradas. Outras ainda correspondem a problemas reais.

Mas existem.

Uma democracia saudável não deveria responder a uma preocupação real dizendo simplesmente a quem a manifesta que é xenófobo. Deveria procurar perceber de onde vem essa preocupação, separar os factos das perceções e responder politicamente ao que tiver fundamento.

É precisamente neste espaço que o discurso extremista encontra terreno fértil.

Uma sociedade muda, surgem novas inquietações, alguém encontra uma linguagem para lhes dar sentido e essa linguagem começa a produzir resultados políticos. Quando esses resultados aparecem, o centro político percebe que algumas das palavras que antes rejeitava já não provocam a mesma repulsa.

Adota então uma versão mais moderada delas.

E, ao fazê-lo, torna-as ainda mais aceitáveis.

Não é necessário que alguém tenha mudado radicalmente de ideologia. Pode bastar que aquilo que antes parecia inadmissível tenha deixado de parecer estranho.

O moderado também pode radicalizar o debate

Há uma tendência para imaginar que o extremismo só existe nas franjas mais visíveis do sistema político. Como se bastasse manter um determinado tom institucional, vestir um determinado tipo de fato ou participar nas instituições democráticas para que qualquer linguagem utilizada permanecesse moderada.

Não é assim.

A moderação não depende apenas da aparência do orador. Depende também das categorias que emprega, dos grupos que escolhe como alvo e das explicações que oferece para os problemas sociais.

Um político pode defender uma política migratória mais restritiva sem recorrer à ideia de invasão. Pode exigir controlo administrativo, fiscalização das redes de exploração, limites de acolhimento ou regras mais claras sem transformar estrangeiros numa ameaça coletiva.

Do mesmo modo, é perfeitamente legítimo discutir os efeitos da imigração sobre a habitação, os salários, a saúde ou a escola pública. O que não é inevitável é atribuir esses problemas aos imigrantes enquanto grupo, retirando da equação as decisões políticas, os interesses económicos e a incapacidade dos governos.

A linguagem extrema tem precisamente essa vantagem política: simplifica.

Dá um rosto visível a problemas que, na realidade, resultam de processos muito mais complexos. É mais fácil culpar quem chegou recentemente do que explicar décadas de salários baixos, especulação imobiliária, falta de investimento público, precariedade laboral, ausência de planeamento e políticas públicas deficientes.

O problema deixa de ser a incapacidade do Estado para planear, regular e integrar. Passa a ser a existência dos que chegaram.

A imigração transforma-se, assim, de fenómeno que exige política pública em ameaça que exige defesa.

Portugal precisa de imigração. Mas isso não resolve tudo.

Portugal precisa de imigração, pelo menos nas condições demográficas e económicas que hoje enfrenta.

Isso não significa que qualquer volume, qualquer modelo de entrada ou qualquer política migratória seja automaticamente desejável. Nem significa que a forma como Portugal geriu a imigração nos últimos anos tenha sido competente.

Uma política migratória responsável deve garantir regularização, fiscalização, condições de trabalho, acesso à habitação, integração e capacidade efetiva de resposta dos serviços públicos. Deve impedir que os imigrantes sejam explorados e que a sua vulnerabilidade seja utilizada para baixar salários ou degradar condições laborais.

Podemos defender a imigração e criticar a forma como ela é gerida.

Podemos reconhecer que Portugal precisa de trabalhadores e, ao mesmo tempo, exigir que esses trabalhadores não sejam empurrados para a informalidade, para a sobrelotação habitacional ou para uma existência permanentemente provisória.

Podemos querer mais controlo sem querer menos humanidade.

O que não podemos fazer é transformar uma falha de governação numa guerra cultural.

E, sobretudo, não devemos aceitar que uma discussão legítima sobre capacidade de integração, fronteiras ou política migratória seja substituída por uma narrativa segundo a qual os próprios imigrantes constituem a causa dos problemas.

A memória desaparece depressa

Talvez por isso seja importante recuperar a memória das migrações portuguesas.

Um artigo recente de Fernanda Câncio recordava a forma como os chamados «retornados» foram recebidos depois da descolonização e como uma população deslocada acabou por ser marcada, estigmatizada e transformada em bode expiatório.

Não me interessa aqui discutir o artigo de Câncio em particular. Interessa-me aquilo que a memória dos retornados nos pode ensinar.

Portugal recebeu, em poucos anos, centenas de milhares de pessoas deslocadas. Pessoas que chegavam de contextos completamente diferentes, muitas vezes em condições traumáticas, e que encontraram também desconfiança, ressentimento e hostilidade.

As circunstâncias históricas eram obviamente diferentes. Os retornados eram portugueses e a sua deslocação resultava de um processo político e histórico extraordinário. Não há equivalência entre esse fenómeno e a imigração contemporânea.

Mas pode existir uma semelhança num mecanismo social: a facilidade com que uma população recém-chegada pode ser transformada em explicação para problemas que lhe são anteriores.

Empregos, habitação, salários, acesso a serviços, criminalidade, pressão sobre o Estado.

O recém-chegado torna-se visível. As causas estruturais permanecem invisíveis.

Portugal deveria ter alguma memória deste mecanismo. Afinal, foi durante décadas um país de emigrantes. Milhões de portugueses partiram para procurar trabalho, segurança ou uma vida melhor. Também nós fomos o estrangeiro que chegou a outro país com pouco dinheiro, com dificuldades de integração e, por vezes, com a sensação de não ser inteiramente desejado.

A memória não impede a discussão sobre os problemas atuais.

Mas pode impedir alguma arrogância.

O perigo está no que passa a ser dizível

O maior perigo da normalização não é apenas que mais pessoas passem a utilizar certas palavras.

É que deixemos de reconhecer o que essas palavras fazem.

Quando se fala constantemente de invasão, torna-se mais fácil aceitar a suspeita generalizada.

Quando se fala de substituição, torna-se mais fácil imaginar que a convivência é impossível.

Quando uma comunidade inteira é tratada como ameaça, a exclusão começa a parecer uma medida de prudência e não uma forma de injustiça.

Não devemos confundir liberdade de expressão com imunidade crítica. Todos têm o direito de utilizar determinadas palavras. Mas a sociedade tem igualmente o direito — talvez até o dever — de perguntar que efeitos essas palavras produzem, que tradições políticas recuperam e quem colocam fora da comunidade.

E isto não é um argumento para silenciar o debate sobre imigração.

É precisamente o contrário.

Se queremos discutir seriamente a imigração, temos de ser capazes de falar sobre ela sem transformar pessoas em categorias ameaçadoras.

Temos de conseguir dizer que a imigração pode ser necessária e, simultaneamente, mal gerida. Que pode trazer benefícios e produzir problemas. Que o Estado deve controlar as suas fronteiras e, ao mesmo tempo, garantir os direitos daqueles que entram legalmente. Que a integração exige esforço dos imigrantes, mas também capacidade e responsabilidade da sociedade que os recebe.

Sobretudo, temos de conseguir distinguir entre um problema que exige uma política e um grupo que é transformado em problema.

O extremismo não começa necessariamente na defesa da violência. Pode começar antes, quando a linguagem que transforma pessoas em inimigos deixa de causar estranheza.

É por isso que o debate migratório exige mais do que posições a favor ou contra. Exige atenção ao vocabulário. Exige distinguir dificuldades concretas de fantasias demográficas. Exige reconhecer as inquietações que existem na sociedade sem lhes oferecer necessariamente os culpados que a linguagem mais fácil proporciona.

E exige perceber que, por vezes, o centro político não resiste ao extremismo por ser moderado: limita-se a torná-lo apresentável.

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