A guerra que não se vê

Paulo Trindade

Fevereiro 4, 2026

Sabotagem, medo e desgaste democrático na Europa

Um incêndio num armazém. Um pacote que arde num centro logístico. Um troço de linha férrea danificado. Um centro comercial reduzido a cinzas durante a madrugada. Notícias breves, títulos que se sucedem, indignação passageira. No dia seguinte, a normalidade recompõe-se — ou tenta recompor-se.

Nada disto, à primeira vista, parece extraordinário. Acidentes acontecem. Falhas técnicas existem. Crimes isolados fazem parte da vida urbana. A tentação é sempre a mesma: arquivar o episódio na gaveta do “infeliz, mas circunstancial” e seguir em frente.

Mas quando os episódios se repetem, em países diferentes, com padrões semelhantes, envolvendo quase sempre infraestruturas sensíveis, cadeias logísticas ou espaços de grande visibilidade pública, a sucessão deixa de ser ruído. Passa a ser sinal.

É nesse intervalo — entre o banal e o inquietante — que se instala uma nova forma de conflito. Uma guerra sem soldados visíveis, sem declarações formais, sem fronteiras claras. Uma guerra que não ocupa territórios, mas ocupa o quotidiano.


A nova guerra: sem soldados, sem bandeiras

Durante décadas, a ideia de guerra foi relativamente estável: exércitos, frentes, mapas, declarações formais. Hoje, essa separação é cada vez mais ilusória.

A nova forma de confronto orientada pela Rússia e que se desenha na Europa move-se em zonas cinzentas, entre o crime comum, a espionagem, a provocação política e a sabotagem discreta. Não visa conquistar território. Visa produzir instabilidade.

É o que vários analistas designam como guerra híbrida: um conjunto de ações fragmentadas, de baixo custo e difícil atribuição, pensadas para permanecer abaixo do limiar que justificaria uma resposta militar direta.

Neste modelo, a ambiguidade não é um efeito colateral. É o próprio instrumento.


Os executores: jovens, precários, descartáveis

Grande parte destas ações não é executada por operacionais experientes, mas por jovens em situação de fragilidade: migrantes recentes, refugiados, trabalhadores precários, pessoas endividadas, socialmente isoladas.

O percurso repete-se: um contacto numa aplicação de mensagens, uma proposta informal, uma tarefa aparentemente banal. Nada que, isoladamente, pareça político.

O caso de Daniil Bardadim, jovem ucraniano recrutado na Polónia, ilustra este mecanismo. Sem integração estável e com poucas perspetivas, acabou por aceitar tarefas fragmentadas, sem compreender plenamente o seu contexto.

Não foi recrutado por convicção ideológica. Foi captado pela combinação de necessidade, pressão social e opacidade.

Quando são detidos, tornam-se peças descartadas. Os organizadores permanecem invisíveis.


A terceirização do caos

Entre os executores no terreno e os centros de decisão existe uma cadeia complexa: serviços de inteligência, redes criminosas, intermediários, plataformas digitais, pagamentos opacos.

Trata-se de uma forma perversa de “uberização” da sabotagem: tarefas temporárias, pagas à peça, sem pertença nem continuidade.

O Estado não desaparece. Reconfigura-se. Passa a operar por intermédio de redes informais, reduzindo custos e riscos diplomáticos.

O resultado é um sistema resiliente, adaptável, difícil de desmontar.


O verdadeiro alvo: a confiança

O objetivo não está nos edifícios queimados nem nos comboios interrompidos. Está na erosão gradual da confiança.

Confiança nas instituições, na previsibilidade do quotidiano, na capacidade do Estado proteger os seus cidadãos.

A repetição sistemática de incidentes cria vulnerabilidade emocional e política. A incerteza transforma-se em arma.

Sem confiança, não há compromisso. Sem compromisso, não há estabilidade.


Medo, cinismo, radicalização

A insegurança prolongada transforma-se em atitude política. Produz cansaço, retraimento e procura por soluções simplistas.

Migrantes tornam-se alvos fáceis. Casos individuais convertem-se em narrativas coletivas.

O cinismo instala-se: “ninguém diz a verdade”, “tudo é manipulação”. A vigilância democrática enfraquece.

A sabotagem material converte-se em sabotagem cívica.


O dilema europeu

Responder pouco transmite fragilidade. Responder demasiado alimenta autoritarismo. O equilíbrio é instável.

A natureza fragmentada da ameaça favorece o atacante. As respostas são lentas. Os custos são elevados.

Mais decisivo do que proteger infraestruturas é fortalecer a resiliência social.

Este é o verdadeiro campo de batalha institucional.


Conclusão — A guerra que não pede autorização

Os episódios dispersos revelam-se fragmentos de uma mesma lógica.

Uma guerra que não ocupa territórios, mas climas. Que não conquista cidades, mas consensos.

O seu sucesso mede-se em sociedades cansadas e democracias fragilizadas.

Resistir-lhe começa por recusar que o medo se torne rotina — e que a resignação substitua a lucidez.


Créditos e Referências

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