Durante anos, Donald Trump foi tratado pela extrema-direita europeia como um aliado ideológico. Não tanto pelo que dizia sobre a Europa, mas pelo que representava: a prova de que o liberalismo podia ser derrotado por dentro, usando as próprias regras da democracia contra ela mesma.
Hoje, essa relação tornou-se um problema.
As ameaças de Trump à Gronelândia — território autónomo sob soberania dinamarquesa — funcionaram como um choque de realidade. Pela primeira vez em muito tempo, o discurso soberanista europeu foi confrontado com uma pergunta simples e desconfortável: soberania para quem?
O equívoco útil
Enquanto Trump atacava Bruxelas, a NATO, o multilateralismo e os “valores liberais”, a extrema-direita europeia sorria. O ataque coincidia com a sua narrativa: elites decadentes, fronteiras fracas, Estados capturados por tecnocratas.
Mas havia um pressuposto implícito nunca assumido: que a soberania europeia estaria a salvo num mundo de grandes potências em confronto. Que o “America First” seria apenas ruído retórico. Que o nacionalismo americano não se transformaria em imperialismo explícito.
A Gronelândia desfez essa ilusão.
Quando Trump fala em “possuir” território europeu, deixa de ser um aliado cultural e passa a ser aquilo que sempre foi: uma potência externa a testar limites.
A contradição soberanista
A reação de várias lideranças da direita radical foi reveladora. Giorgia Meloni, que se posicionou durante anos como ponte entre a Europa e Trump, respondeu com uma dureza pouco habitual quando o presidente americano desvalorizou o sacrifício militar europeu no Afeganistão. Jordan Bardella classificou a posição sobre a Gronelândia como “inaceitável”. Até Nigel Farage falou num “ato hostil”.
Não se trata de uma conversão súbita ao internacionalismo liberal. Trata-se de instinto político básico: não se pode defender soberania nacional e normalizar a ideia de anexação por uma potência estrangeira.
O soberanismo seletivo — duro contra Bruxelas, tímido perante Washington — revela-se, afinal, aquilo que sempre foi: um discurso instrumental, não um princípio.
O mundo das “esferas de influência”
Onde o artigo do New York Times é mais perturbador é na descrição das divisões internas dentro da extrema-direita europeia. Em partidos como a AfD alemã, coexistem duas visões incompatíveis: uma que ainda fala em soberania nacional e outra que aceita abertamente um mundo organizado por “esferas de influência”.
Neste modelo, não há Estados iguais — há centros de poder e periferias obedientes. A Ucrânia “pertence” à Rússia. A Gronelândia “pertence” aos Estados Unidos. A Europa existe enquanto espaço económico, não enquanto sujeito político.
Este é o ponto em que o iliberalismo deixa de ser apenas um desvio democrático e se torna um problema geopolítico sério. Porque quando as regras deixam de ser universais, passam a ser impostas.
O custo da ambiguidade
Durante demasiado tempo, parte da direita europeia acreditou que podia cavalgar a onda trumpista sem pagar o preço. Que era possível importar o estilo, a agressividade e a retórica sem herdar a lógica de poder subjacente.
Trump veio lembrar o óbvio: quem relativiza o direito internacional não controla quem o faz primeiro.
Hoje é a Gronelândia. Amanhã será outra “exceção estratégica”. E, quando isso acontecer, já não bastará falar de soberania — será preciso explicar por que razão ela foi tratada como slogan e não como princípio.
Uma escolha que já não pode ser adiada
A extrema-direita europeia enfrenta agora um dilema que tentou adiar durante anos: ou a soberania é um valor universal, aplicável a todos os Estados, grandes ou pequenos, ou é apenas uma palavra bonita para justificar submissões convenientes.
Trump não mudou. Apenas levou o discurso iliberal até às suas últimas consequências.
E é isso, mais do que qualquer ameaça concreta, que o tornou um problema.
Créditos
Imagem em destaque – Wikimedia