Quando escrevi que a Venezuela se tinha tornado um laboratório do novo realismo ocidental — onde a estabilidade passou a valer mais do que a democracia — estava a descrever uma mudança silenciosa, gradual, quase envergonhada. Hoje, essa mudança deixou de ser discreta. Tornou-se explícita.
O recente artigo do The New York Times descreve, com detalhe factual, como a administração de Donald Trump avançou para o controlo direto da indústria petrolífera venezuelana após a captura de Nicolás Maduro. Não se trata já de influência, mediação ou pressão diplomática. Trata-se de apropriação.
É o fim de um tabu histórico.
Do pragmatismo à força
No texto anterior, argumentei que Washington abandonara progressivamente a aposta na reconstrução democrática da Venezuela, optando por uma política de gestão:
- garantir previsibilidade,
- estabilizar fluxos energéticos,
- evitar o caos regional,
- normalizar relações económicas.
Essa escolha não foi apresentada como ideal, mas como inevitável. Em nome do “realismo”, sacrificavam-se princípios.
O que agora vemos é o passo seguinte dessa lógica: quando a democracia deixa de ser central, quando a legitimidade deixa de ser prioritária, o interesse material tende a ocupar todo o espaço.
A estabilidade transforma-se em domínio.
A naturalização da apropriação
Durante décadas, mesmo nas intervenções mais controversas, os Estados Unidos evitaram assumir o controlo direto de recursos estrangeiros. No Irão, no Kuwait, no Iraque, havia influência, pressão, contratos — mas não posse formal.
Essa contenção funcionava como um limite simbólico: havia uma linha que não se cruzava.
Hoje, essa linha foi apagada.
A administração norte-americana já não sente necessidade de disfarçar. Assume que pode “tomar” petróleo como parte da sua política externa. A linguagem da cooperação é substituída pela linguagem da posse.
Não é apenas uma mudança tática. É uma mudança civilizacional na forma como o poder se entende.
Estabilidade sem legitimidade
O problema central desta evolução não é apenas jurídico ou diplomático. É político.
No meu artigo anterior, sublinhei que a estabilidade sem legitimidade é sempre frágil. Pode durar algum tempo, mas depende da força, não do consentimento.
A apropriação de recursos acelera essa erosão.
Nas redes sociais, a intervenção já não é vista como estratégia, mas como pilhagem. Confunde-se Estado, interesse nacional e enriquecimento privado. A política externa é reinterpretada como crime organizado à escala global.
Mesmo que esta perceção seja exagerada, o seu impacto é real.
Sem legitimidade, não há ordem duradoura.
O paradoxo energético
Há ainda um paradoxo difícil de ignorar: os Estados Unidos já não dependem estruturalmente do petróleo venezuelano. São hoje exportadores líquidos de energia.
A motivação não é necessidade.
É poder.
É demonstração de força.
É sinalização interna e externa.
É política identitária aplicada à geopolítica.
Um precedente perigoso
O que acontece na Venezuela não fica na Venezuela.
Quando uma grande potência normaliza a apropriação direta de recursos, envia uma mensagem clara ao sistema internacional:
- soberania é relativa,
- direitos são negociáveis,
- força cria legitimidade.
Outros atores aprenderão a lição.
O multilateralismo enfraquece.
As normas tornam-se decorativas.
O mundo aproxima-se de uma lógica pré-institucional.
Conclusão: o realismo sem travões
O “novo realismo” começou como uma adaptação pragmática a um mundo instável. Transformou-se, passo a passo, numa política sem horizonte normativo.
Primeiro sacrificou a democracia.
Depois relativizou a soberania.
Agora assume a apropriação.
Quando os limites desaparecem, o realismo deixa de ser prudência e torna-se cinismo.
A curto prazo, pode produzir ganhos.
A médio prazo, gera ressentimento.
A longo prazo, mina a ordem que o próprio poder precisa para sobreviver.
A Venezuela é hoje o espelho dessa transformação.
E o reflexo não é tranquilizador.
Referências e leituras complementares
Michael Crowley, “Trump’s Oil Grab in Venezuela Shatters an American Taboo“, New York Times
A Venezuela e o novo realismo: quando a estabilidade vale mais do que a democracia