Quando a guerra se torna sistema

Paulo Trindade

Março 31, 2026

A persistência do conflito não se explica apenas pelo poder — mas pelos mecanismos que o tornam funcional

A guerra tende a ser apresentada como rutura — um momento excecional onde a política falha e a violência se impõe. Mas há conflitos que deixam de ser exceção para se tornarem estrutura. O Médio Oriente está, hoje, perigosamente próximo desse ponto.

Nos últimos meses, diferentes dinâmicas convergiram num padrão comum. Os Estados Unidos ameaçam escalar o conflito com o Irão, admitindo atingir infraestruturas civis críticas. Israel prolonga e expande a sua ação militar em múltiplos teatros — Gaza, Cisjordânia, Líbano — enquanto mantém uma pressão constante sobre o espaço regional. À primeira vista, são episódios distintos. Mas observados em conjunto, revelam uma lógica mais profunda.

Essa lógica não é apenas militar. É sistémica.

Ao contrário da erraticidade americana, a atuação israelita revela uma coerência difícil de ignorar. Gaza, Cisjordânia e Líbano não são conflitos isolados, mas extensões de uma mesma matriz operacional. A pressão é contínua, territorialmente difusa e politicamente sustentada. Não se trata apenas de responder a ameaças imediatas, mas de reconfigurar de forma contínua o espaço onde essas ameaças existem.

Essa matriz operacional é hoje também mediada por tecnologia. A seleção de alvos assistida por sistemas automatizados, a vigilância contínua e a gestão algorítmica do território contribuem para transformar a guerra numa forma de administração técnica. Quanto mais eficiente se torna esse processo, mais facilmente se integra na rotina — e menos depende de decisões excecionais.

Essa coerência manifesta-se também no tipo de práticas que acompanham a ação militar. A destruição alargada de infraestruturas civis, o uso de força com efeitos desproporcionados, a expansão de mecanismos de detenção com garantias limitadas e as condições denunciadas em diferentes relatórios internacionais não surgem como episódios isolados. Quando se repetem, deixam de ser exceção. Passam a integrar o funcionamento do sistema.

O ponto não é apenas jurídico — embora a questão do direito internacional humanitário se imponha. É estrutural. Quando práticas excecionais se tornam recorrentes e dirigidas a populações específicas, a fronteira entre operação e norma começa a dissolver-se. Essa transformação não ocorre num vazio jurídico. O direito internacional foi concebido para enquadrar situações delimitadas no tempo e no espaço. Quando a exceção se prolonga e se torna padrão, essas molduras começam a revelar a sua inadequação.

Mas o sistema não se explica apenas pelo que faz. Explica-se também pelo que produz.

A pressão sobre o Irão, por exemplo, não gerou apenas constrangimento. A instabilidade elevou os preços da energia e abriu espaço a circuitos paralelos de exportação. O resultado é um paradoxo conhecido: um regime sob ataque pode, em determinadas condições, reforçar as suas receitas. A guerra, neste caso, não estrangula — redistribui. É nesse ponto que emerge aquilo a que poderíamos chamar uma economia política da guerra: um sistema onde a destruição não impede a circulação de recursos, mas antes a reorganiza.

Essa redistribuição não é abstrata. Tem destinatários concretos: Estados exportadores de energia que beneficiam da instabilidade, redes comerciais que operam à margem das sanções, indústrias de defesa que prosperam com a escalada e sistemas tecnológicos que encontram na guerra um campo de aplicação e validação. O conflito não gera apenas destruição — gera circuitos de interesse que contribuem para a sua persistência.

Mas esses ganhos não são distribuídos de forma uniforme entre os próprios atores centrais. Para os Estados Unidos, os custos tendem a ser globais: dispersão estratégica, erosão de capital diplomático e risco de envolvimento numa escalada que não controlam plenamente. Para Israel, pelo contrário, a lógica é mais imediata e territorial: a oportunidade de degradar adversários diretos e reconfigurar o espaço regional.

Essa assimetria é relevante. Enquanto um procura conter o sistema, o outro opera dentro dele como forma de o transformar. E é nesse desfasamento que a relação entre ambos revela os seus limites. Em determinadas circunstâncias, a relação entre aliados deixa de ser apenas de alinhamento estratégico e passa a refletir dinâmicas onde a iniciativa operacional não coincide com o centro de decisão global.

Para além dos atores diretamente envolvidos, o sistema beneficia também terceiros. Potências como a Rússia e a China encontram na concentração americana no Médio Oriente uma oportunidade para expandir influência noutras geografias, enquanto beneficiam indiretamente de dinâmicas económicas associadas à instabilidade.

O mesmo padrão emerge no Líbano. A pressão militar sobre o Hezbollah ocorre num contexto de fragilidade estatal. Ao enfraquecer ainda mais o Estado libanês, cria-se espaço para que atores não estatais recuperem ou consolidem influência. O objetivo tático — conter uma milícia — pode produzir o efeito estratégico inverso.

Entre a intenção e o resultado instala-se um desfasamento. E é nesse desfasamento que o sistema se alimenta.

Há ainda um terceiro nível, menos visível mas decisivo: o da sustentação social. O apoio às políticas israelitas não é homogéneo nem isento de contestação, incluindo dentro das próprias comunidades judaicas, onde emergem críticas baseadas em princípios morais e preocupações humanitárias. Mas esse dissenso, embora real, é absorvido pelo próprio sistema. A inércia institucional, combinada com perceções de ameaça existencial, tende a sobrepor-se à crítica moral. O resultado não é consenso — é continuidade.

E isso é suficiente.

A ação militar gera instabilidade. A instabilidade produz efeitos económicos. Esses efeitos redistribuem recursos e reforçam determinados equilíbrios. As novas condições alimentam decisões políticas que legitimam novas ações. O ciclo fecha-se — e recomeça.

Importa sublinhar: isto não implica ausência de estratégia. Há estratégia, há intenção e há objetivos claros. Mas essas estratégias operam dentro de um sistema que reage, absorve e devolve consequências que nem sempre são controláveis — e que, frequentemente, reforçam aquilo que se pretendia alterar. E quanto mais esse sistema se consolida, mais difícil se torna para qualquer dos seus intervenientes operar fora dele.

A questão, por isso, não é apenas saber quem tem razão. É perceber que tipo de sistema está a emergir.

Um sistema onde a guerra deixa de ser um meio para atingir um fim — e passa a ser uma condição que se autoalimenta. Onde os custos não são distribuídos de forma uniforme e, por isso, não produzem travões. Onde a destruição convive com circuitos de benefício indireto. E onde cada tentativa de controlo gera novas formas de instabilidade que justificam intervenções adicionais.

Quando a guerra se torna estrutura, o problema deixa de ser vencê-la — passa a ser desarmar o sistema que a reproduz.

Referências

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