A proposta da Iniciativa Liberal para remover a expressão “emergência climática” da Lei de Bases do Clima foi apresentada como um gesto de despolitização e racionalidade. Segundo os seus proponentes, a palavra “emergência” transportaria uma carga política excessiva, devendo ser substituída por termos considerados mais neutros.
À primeira vista, a discussão pode parecer meramente semântica. Na realidade, trata-se de uma escolha política com implicações concretas: aceitar o problema sem assumir a urgência das respostas.
Diagnóstico e soluções: uma confusão deliberada
Uma parte relevante do debate público sobre o clima confunde dois planos distintos: o diagnóstico e as soluções.
Reconhecer a existência das alterações climáticas não é o mesmo que agir como se fossem uma prioridade absoluta. Do mesmo modo, discutir opções tecnológicas — como o nuclear — não substitui o reconhecimento político da urgência.
Quando se desloca o debate da emergência para as soluções de longo prazo, evita-se a questão central: o que fazer agora, nesta década decisiva?
Esta confusão não é inocente. É uma forma eficaz de adiar decisões difíceis.
O horizonte de 2030
No quadro da União Europeia, as principais metas intermédias de descarbonização estão definidas para 2030. Até essa data, os Estados-membros comprometeram-se a reduzir significativamente as emissões e a acelerar a transição energética.
No caso de Portugal, esses objetivos são particularmente exigentes, refletindo uma aposta clara nas energias renováveis, na eletrificação e na eficiência energética.
2030 não é um horizonte distante. Está praticamente à porta. É neste contexto temporal que todas as propostas devem ser avaliadas.
O argumento do nuclear: realismo ou adiamento?
Nos últimos anos, o nuclear tem sido frequentemente apresentado como solução para a transição energética, incluindo no debate português. Em abstrato, trata-se de uma tecnologia com baixas emissões de carbono e importância comprovada em alguns países.
Mas a análise concreta é menos favorável.
Mesmo em países com longa experiência, como França, Finlândia ou Reino Unido, as novas centrais nucleares têm enfrentado atrasos prolongados e custos elevados. O tempo médio entre decisão política e entrada em funcionamento ronda, muitas vezes, os 15 a 20 anos.
Para Portugal, que não dispõe de qualquer infraestrutura nuclear, esse prazo seria ainda maior.
Isto significa que uma eventual aposta no nuclear não teria qualquer impacto relevante antes de 2040. Não contribuiria, portanto, para o ciclo crítico de 2030.
Custos e prioridades
O custo de uma central nuclear moderna ultrapassa frequentemente vários milhares de milhões de euros. Para uma economia da dimensão portuguesa, isso implicaria concentrar recursos financeiros e institucionais durante décadas.
Esses mesmos recursos poderiam ser aplicados, com efeitos muito mais rápidos, na expansão do solar e da eólica, no reforço da rede elétrica, no armazenamento de energia, na eletrificação dos transportes e na reabilitação energética dos edifícios.
O debate não é apenas tecnológico. É também uma questão de prioridades.
Apostar numa solução de longo prazo, quando existem alternativas disponíveis hoje, representa um elevado custo de oportunidade.
A especificidade portuguesa
Portugal dispõe de condições naturais excecionais para a produção de energia renovável. O sol, o vento e a posição geográfica oferecem vantagens comparativas claras.
Nas últimas décadas, o país construiu um sistema elétrico fortemente orientado para essas fontes, com resultados reconhecidos a nível europeu.
Ignorar este contexto e importar modelos concebidos para realidades muito diferentes é um erro estratégico. As políticas públicas eficazes partem do território, não de abstrações.
A dimensão ideológica
A recusa em assumir a “emergência climática” e a insistência em soluções adiadas no tempo inserem-se num padrão mais amplo.
Em vários países, setores liberais e conservadores têm adotado uma abordagem que reconhece formalmente o problema climático, mas procura neutralizar as suas implicações políticas.
Este enquadramento circula através de redes internacionais de produção ideológica, relatórios, índices e narrativas que tendem a minimizar a urgência e a deslocar o foco para o longo prazo.
Não se trata de uma ligação formal, mas de uma afinidade conceptual visível.
Emergência ou gestão permanente?
No fundo, o debate não é entre “realistas” e “idealistas”. É entre duas formas de encarar o tempo político.
Uma reconhece que esta década é decisiva e que exige prioridade máxima. A outra aceita o problema, mas prefere diluí-lo numa gestão permanente, sem rutura nem urgência.
Remover a noção de emergência da lei não é um gesto neutro. É um sinal de recuo.
Num contexto em que os efeitos climáticos se intensificam e as metas se aproximam, a escolha não é entre alarmismo e serenidade. É entre agir agora ou adiar para amanhã.
E, no clima, o amanhã chega sempre mais depressa do que se espera.