As imagens vindas do Minnesota — operações federais militarizadas, agentes mascarados, mortes, comunidades aterrorizadas em nome da “ordem” — provocaram uma onda rara de repulsa pública. Durante dias, dominaram o debate nacional e expuseram, de forma crua, os excessos da política migratória da administração Trump.
Por momentos, pareceu possível acreditar que algo tinha mudado. Democratas, independentes e comentadores moderados falaram num “ponto de viragem”. Num contexto de desgaste acumulado, talvez esta fosse, finalmente, a linha vermelha.
Não foi.
O que se seguiu não foi uma correção política. Foi uma operação de gestão de danos.
Repressão como espectáculo
A chamada “Operation Metro Surge” revelou, de forma crua, a lógica do segundo mandato de Donald Trump: transformar a imigração num teatro de força, onde o Estado se apresenta como potência disciplinadora.
Não se tratou apenas de aplicar a lei. Tratou-se de exibir poder.
A presença massiva de agentes federais, a retórica de “inimigos internos” e a criminalização colectiva de comunidades inteiras compuseram uma encenação política cuidadosamente construída. A repressão deixou de ser um instrumento discreto. Passou a ser mensagem.
Quando surgiram mortos, protestos e indignação nacional, o problema para a Casa Branca não foi moral. Foi comunicacional.
Gerir crises sem mudar políticas
Susan B. Glasser descreve o guião com precisão no The New Yorker: distração, desinformação, negação, adiamento.
Nada de substancial muda. Muda apenas o enquadramento.
Trump afasta um responsável secundário, fala em “ajustamentos”, promete “acalmar os ânimos”. Mas mantém intactos os arquitectos da política, reafirma a linha dura e rejeita qualquer limitação estrutural.
O tom suaviza-se. A estratégia permanece.
É um modelo testado ao longo de uma década: sobreviver ao escândalo sem ceder no essencial, transformar cada crise numa pausa táctica — nunca num momento de aprendizagem democrática.
Rejeição pública sem ruptura
O dado mais inquietante não é a brutalidade das operações. É a sua normalização.
Apesar da repulsa visível, das imagens chocantes e da crítica internacional, os números de Trump mantêm-se estáveis. Maus, mas estáveis. Nem colapsam, nem recuperam. Flutuam dentro de um intervalo previsível.
Isto revela um fenómeno mais profundo: uma parte significativa do eleitorado já integrou o autoritarismo no contrato político.
Para esses eleitores, excessos não são desvios. São custos aceitáveis.
A indignação existe. Mas raramente se traduz em ruptura.
Dispersar o ruído, proteger o núcleo
Perante a crise, Trump fez o que faz sempre: mudou de assunto.
Putin, Venezuela, Irão, habitação, preços dos medicamentos, autoelogios — qualquer tema serviu para diluir a atenção pública. O Minnesota desapareceu da agenda presidencial antes de desaparecer da realidade.
Em paralelo, protegeu o núcleo ideológico do seu poder. Stephen Miller e Kristi Noem permaneceram intocáveis. Não houve responsabilização. Não houve revisão estratégica.
Num regime iliberal funcional, os erros não se corrigem. Administram-se.
O termómetro da radicalização
Enquanto o discurso oficial falava em “desescalada”, Stephen Miller continuava a radicalizar nas redes sociais.
Chamava “assassino” a vítimas, atacava juízes, legitimava a repressão, deslegitimava instituições. Nada mudou ali. Porque ali nunca houve recuo.
O seu discurso funciona como um sismógrafo do trumpismo: regista o que realmente se pensa, quando a retórica institucional tenta disfarçar.
Se há moderação, é estética. Não é ideológica.
A máquina do Estado: repressão já incorporada
Mas o problema não é apenas político. É institucional.
A resposta federal no Minnesota não surgiu no vazio. Desde o pós-11 de Setembro, os Estados Unidos construíram um aparelho securitário marcado pela obsessão com o risco, pela militarização e pela expansão constante de competências.
A imigração foi absorvida por esse sistema como se fosse um teatro de guerra.
Equipamento militar, centros de vigilância, fusão de dados, cultura de suspeição permanente: tudo isto foi normalizado ao longo de duas décadas.
O resultado é um Estado preparado para intervir internamente como se estivesse num conflito.
Por isso Minneapolis não pareceu uma operação policial. Pareceu uma campanha militar. E não por acaso.
Trump não inventou este mecanismo. Herdou-o. Radicalizou-o. Usou-o sem constrangimentos.
Quando um aparelho perde ancoragem jurídica e cultural, deixa de precisar de ordens explícitas para se exceder. Passa a fazê-lo por inércia.
O autoritarismo resiliente
O que o caso Minnesota revela, assim, não é apenas a brutalidade de um líder. É a maturidade de um sistema.
Este é um autoritarismo que combina vontade política com capacidade administrativa. Que alia retórica populista a estruturas estatais desenhadas para a excepção permanente.
Aprendeu:
– a sobreviver a escândalos
– a absorver indignação
– a simular recuos
– a gerir desgaste
Já não depende de vitórias esmagadoras. Basta-lhe não perder.
Não precisa de consenso. Precisa de resistência suficiente para atravessar tempestades.
É o autoritarismo da permanência.
Para lá dos Estados Unidos
Este padrão não é exclusivamente americano.
Vemo-lo na Europa, na América Latina, em democracias formalmente estáveis. Governos que testam limites, recuam superficialmente, avançam estruturalmente.
A resposta institucional tende a ser conciliadora no método e permissiva nos resultados. Evitam-se conflitos abertos. Negociam-se princípios.
E, pouco a pouco, o inaceitável torna-se discutível. O discutível torna-se normal. O normal torna-se permanente.
Pausa não é recuo
A crise do Minnesota não foi o início do fim de Trump.
Foi mais um capítulo na sua aprendizagem do poder.
Aprendeu a parecer moderado sem o ser. A pedir calma sem abdicar da força. A falar em unidade enquanto aprofunda divisões.
Num tempo saturado de “momentos decisivos”, talvez a maior ilusão seja esperar que o autoritarismo se autodestrua.
Ele não se destrói.
Adapta-se.
E, enquanto se adapta, avança.
Créditos e referências
Imagem de destaque – Wikimedia / Chad Davis