Quando o adversário escolhe o terreno

Paulo Trindade

Setembro 19, 2026

Como a direita radical molda a agenda e a linguagem dos seus opositores

A ascensão da direita radical europeia costuma ser medida através dos indicadores mais visíveis: percentagem de votos, número de deputados, participação em coligações ou entrada no governo. São medidas necessárias, mas captam apenas uma parte da sua influência.

Um partido não precisa de governar para transformar um sistema político. Pode fazê-lo quando consegue determinar os assuntos aos quais os restantes partidos têm de responder, quando contribui para deslocar as posições dos seus concorrentes ou quando altera a própria linguagem através da qual esses concorrentes justificam as suas escolhas.

A pergunta relevante deixa então de ser apenas quanto cresce a direita radical.

Passa a ser também: o que acontece aos outros partidos quando ela cresce?

Da agenda à forma de argumentar

Um preprint publicado em agosto de 2026 oferece uma pista pouco habitual para responder à pergunta.

Peer Saleth, Segun T. Aroyehun e outros investigadores analisaram cerca de 4,5 milhões de tweets de políticos alemães e 59.170 discursos parlamentares no Bundestag entre 2015 e 2025. O objetivo não era distinguir afirmações verdadeiras de falsas, mas medir a prevalência relativa de duas formas de fundamentação retórica: uma mais orientada para evidência, factos e avaliação; outra mais associada à intuição, convicção pessoal e sentimento.

Para isso utilizaram um indicador denominado Evidence Minus Intuition — EMI. Um valor mais elevado corresponde a uma maior proximidade relativa a linguagem associada à evidência; um valor mais baixo, a linguagem associada à intuição. O método foi validado através de avaliações humanas e comparado com modelos alternativos, embora os próprios investigadores reconheçam a ambiguidade inerente à classificação de pequenas passagens de discurso político.

O resultado mais interessante aparece em torno de 2017, quando a Alternative für Deutschland entrou no Bundestag. Os investigadores encontram uma quebra significativa do EMI no discurso parlamentar coincidente com esse ciclo eleitoral. A deslocação não fica confinada à AfD: ocorre de forma mais ampla na câmara. Nas redes sociais, a evolução é mais gradual; no parlamento, apresenta-se através de mudanças mais abruptas associadas aos ciclos eleitorais.

O desenho do estudo não permite atribuir essa transformação à entrada da AfD. Outros acontecimentos atravessam o período analisado e os autores apresentam os resultados como movimentos compatíveis com hipóteses de difusão e adaptação, não como demonstração causal.

A hipótese permanece, contudo, relevante: a influência de um partido radical pode ultrapassar posições políticas concretas e chegar à própria forma como os restantes atores argumentam.

Três formas de contágio

A ciência política estuda há bastante tempo a influência que partidos inicialmente periféricos podem exercer sobre os restantes. Em 2010, Joost van Spanje encontrou, numa análise de 75 partidos de onze países da Europa Ocidental, um efeito de contagion nas posições sobre imigração. Segundo o estudo, a pressão dos partidos anti-imigração estava associada a deslocações no conjunto dos sistemas partidários, e não apenas na direita tradicional.

Esse processo pode ser observado em pelo menos três dimensões.

A primeira é a agenda. Quando um partido consegue transformar imigração, identidade, criminalidade ou segurança numa questão eleitoralmente central, os restantes são pressionados a responder. Nem sequer precisam de concordar com as suas propostas: a própria contestação pode contribuir para manter o assunto no centro da competição política.

A segunda é a posição. Um partido tradicional pode aproximar algumas das suas políticas das do desafiante, esperando reduzir a distância entre ambos e recuperar eleitores.

O estudo alemão sugere uma terceira dimensão: a forma como essas posições são justificadas.

Entre os mecanismos considerados pelos autores está a strategic rhetorical mimicry: perante pressão competitiva, atores estabelecidos podem incorporar elementos do estilo comunicacional do concorrente. Outro passa pelo agenda-setting e um terceiro pelos incentivos das redes sociais, onde conteúdos emocionalmente mobilizadores encontram condições particularmente favoráveis à circulação.

O resultado mais sugestivo surge quando os investigadores controlam estatisticamente os temas tratados. A tendência permanece. A deslocação para linguagem relativamente mais intuitiva não parece resultar apenas de os políticos passarem a falar mais de imigração, identidade ou criminalidade; ocorre também dentro de muitos dos mesmos assuntos.

Isto não transforma emoção, experiência ou valores em elementos estranhos à política democrática. A questão colocada pelos autores é outra: o que acontece quando a evidência perde peso relativo como base comum para confrontar afirmações e avaliar políticas públicas?

Quando todos falam de imigração

A acomodação tem uma lógica eleitoral intuitiva. Se um partido cresce explorando uma preocupação existente no eleitorado, aproximar posições pode parecer uma forma de lhe retirar espaço.

A evidência comparada mostra uma realidade menos linear.

Jakob Schwörer, Sarah Engler e Belén Fernández-García analisaram 14 eleições da Europa Ocidental em que imigração ou terrorismo tinham elevada saliência, abrangendo 37 partidos tradicionais de centro-esquerda e centro-direita. No estudo, publicado em maio de 2026 na Political Research Exchange, os partidos analisados não obtiveram benefício eleitoral de deslocações visíveis para posições mais restritivas sobre imigração. A ausência dessa deslocação foi, dentro da amostra e segundo a análise dos autores, condição suficiente para evitar perdas consideráveis para partidos populistas de direita radical.

O resultado não estabelece uma regra universal. É suficiente, porém, para pôr em causa uma premissa frequente: a ideia de que diminuir a distância programática em relação ao concorrente radical constitui necessariamente uma forma eficaz de o neutralizar.

Existe um paradoxo possível. Ao aproximar-se do adversário num assunto que este já conseguiu tornar central, um partido tradicional pode reduzir a distância entre ambos e, simultaneamente, aumentar ainda mais a importância eleitoral desse assunto.

A competição deixa então de ser apenas sobre qual das posições deve prevalecer. Passa também por saber quem conseguiu decidir sobre que assunto todos estão a competir.

Estes mecanismos não operam de forma mecânica nem idêntica em todos os países. A pressão de um partido radical pode alterar a agenda sem deslocar posições, deslocar posições sem produzir ganhos eleitorais ou provocar respostas diferentes entre partidos do mesmo sistema.

É precisamente essa ausência de automatismo que torna útil olhar para a Suécia.

A Suécia como contraponto

Durante a última década, a política sueca deslocou-se significativamente em matéria de imigração e integração. Os próprios Social-Democratas endureceram algumas posições sobre imigração e segurança, aproximando-se em determinados pontos dos partidos à sua direita e observando também a experiência dos Social-Democratas dinamarqueses.

As eleições de setembro de 2026 não produziram, contudo, uma simples continuação desse movimento.

Na última distribuição oficial ainda preliminar, divulgada pela autoridade eleitoral sueca a 17 de setembro, os Sweden Democrats ficaram com 62 deputados, o Vänsterpartiet com 30 e os Social-Democratas com 99. A autoridade eleitoral advertia que o resultado final só seria fixado depois da contagem definitiva pelos condados e da atribuição formal dos mandatos.

Ao mesmo tempo, o Vänsterpartiet registou avanços particularmente fortes em algumas zonas urbanas vulneráveis e antigos territórios social-democratas.

A Suécia interessa menos como prova de que a acomodação falha do que como advertência contra uma leitura demasiado simples da competição partidária. A aproximação entre partidos num determinado eixo não elimina necessariamente o partido que ajudou a tornar esse eixo central. Pode, ao mesmo tempo, abrir novas distâncias noutros temas e junto de outros segmentos do eleitorado.

O sistema não se desloca simplesmente para a direita ou para a esquerda. Pode reorganizar-se em torno de novas linhas de conflito.

Portugal: política e enquadramento

Portugal oferece um caso particularmente interessante pela velocidade da transformação do sistema partidário.

O CHEGA entrou na Assembleia da República em 2019 com um deputado. Em 2022 passou para 12 e, em 2024, para 50. Nas legislativas de maio de 2025 obteve 1.438.554 votos, 23,74% dos votos validamente expressos e 60 deputados, passando a ter a segunda maior bancada parlamentar.

Esta progressão cria pontos temporais úteis para observar as respostas dos restantes partidos.

A imigração é provavelmente o domínio mais evidente, desde que se distinga mudança de política de mudança de enquadramento.

Uma política migratória mais restritiva não constitui, por si mesma, evidência de contágio. O Estado português enfrentava problemas administrativos concretos, entre eles centenas de milhares de processos pendentes, ao mesmo tempo que procurava reformular o sistema de regularização e controlo migratório. A própria orientação governamental continuou a combinar maior regulação com referências à integração e a uma política de imigração «regulada e humanista».

É na comparação da linguagem que surge uma mudança mais facilmente observável.

No programa eleitoral do PSD de 2022, a secção dedicada a «Imigrantes e refugiados» começava por destacar o contributo positivo dos imigrantes para a demografia e a Segurança Social. O diagnóstico incidia depois sobre desigualdade, discriminação, integração e inclusão social.

Dois anos depois, o programa eleitoral da Aliança Democrática continuava a defender imigração legal, integração, proteção internacional e atração de trabalhadores qualificados, mas acrescentava uma formulação diferente: Portugal deveria ser um país de «portas abertas à imigração, mas não de portas escancaradas». O princípio era associado a objetivos quantitativos, segurança, qualificações e combate às redes ilegais e criminosas.

No Programa do XXV Governo, em 2025, o vocabulário intensifica-se. O documento fala em «imigração descontrolada», caracteriza alterações anteriores como «facilitistas e irresponsáveis» e apresenta o fim da manifestação de interesse como o encerramento de uma política de «portas escancaradas». No mesmo capítulo, continua a definir a orientação pretendida como uma política de imigração «regulada e humanista».

Entre 2022 e 2025 existe, portanto, uma alteração documental observável no enquadramento utilizado pelo centro-direita português. Isso é diferente de afirmar que ocorreu uma transformação equivalente da política substantiva — e ainda mais diferente de atribuir a mudança ao crescimento do CHEGA.

O período concentra demasiadas alterações para permitir essa conclusão apenas a partir da sequência dos documentos: crescimento da população estrangeira, acumulação de processos administrativos, extinção do SEF, reorganização institucional, mudança de governo e uma transformação rápida do equilíbrio eleitoral.

É precisamente aí que começa a questão interessante.

Portugal como laboratório

A hipótese pode ser formulada de uma forma suficientemente concreta para poder ser contrariada pelos dados:

À medida que a imigração ganhou centralidade política e o CHEGA ganhou peso parlamentar, mudou também o enquadramento através do qual os restantes partidos portugueses passaram a descrever o problema?

Há documentação suficiente para tentar responder. Programas eleitorais, programas de governo e registos parlamentares permitem comparar períodos anteriores e posteriores a 2019 e, sobretudo, à transformação do CHEGA numa grande bancada em 2024.

Importa separar fenómenos que podem ocorrer simultaneamente sem serem equivalentes.

Falar mais de imigração indicaria aumento de saliência. Falar de imigração recorrendo a um vocabulário diferente indicaria mudança de enquadramento. Alterar a forma como se justificam posições sobre imigração aproximar-se-ia da transformação retórica ou epistémica estudada no caso alemão.

Encontrar o primeiro fenómeno não demonstraria automaticamente os dois seguintes.

Uma análise poderia medir a frequência normalizada de referências a imigração, nacionalidade, criminalidade ou segurança; acompanhar a evolução de termos como «descontrolo», «facilitismo», «portas escancaradas», «abuso» ou «efeito de chamada»; e comparar o tipo de argumentos utilizados por PSD, PS, CHEGA e restantes partidos quando discutem os mesmos assuntos.

A hipótese de contágio ganharia consistência se a crescente saliência do CHEGA fosse seguida por uma alteração sistemática e temporalmente identificável do vocabulário dos seus concorrentes, sobretudo quando essa mudança não acompanhasse simplesmente a evolução das condições materiais que rodeiam a imigração.

Ficaria enfraquecida se enquadramentos semelhantes já fossem frequentes antes de 2019, se a evolução acompanhasse de perto mudanças objetivas nos fluxos migratórios e na capacidade administrativa ou se surgisse apenas associada a um determinado governo ou liderança, sem correspondência no discurso político mais amplo.

Também é possível encontrar um resultado intermédio: forte contágio da agenda, alguma convergência de posições e pouca transformação do estilo argumentativo.

Seria menos espetacular. Seria também uma descrição mais precisa do fenómeno.

Há, finalmente, uma razão pela qual esta influência é particularmente difícil de reconhecer. Uma lei pode ser identificada, atribuída a quem a aprovou, contestada e eventualmente revogada. O poder de enquadramento é mais difuso. Atua antes da decisão, na seleção dos problemas que merecem atenção, nas palavras utilizadas para os descrever e nas alternativas que passam a parecer plausíveis.

Quando esse enquadramento começa a ser partilhado por vários partidos, torna-se também mais difícil atribuí-lo a um ator específico.

O poder que antecede a decisão

A influência política não começa necessariamente quando uma lei é aprovada ou quando um partido entra no governo.

Pode começar antes.

Quando determinado assunto se torna inevitável. Quando o vocabulário utilizado pelos adversários muda. Quando propostas anteriormente marginais passam a integrar o conjunto das alternativas consideradas. Ou quando, mesmo para rejeitarem uma resposta, os concorrentes começam por aceitar a pergunta que tornou essa resposta possível.

É isso que torna esta forma de poder particularmente difícil de observar. Não aparece necessariamente numa votação parlamentar nem pode ser atribuída através de uma assinatura num decreto.

A investigação de van Spanje mostrou que partidos anti-imigração podem influenciar posições do restante sistema partidário sem exercerem diretamente poder governativo. O estudo alemão acrescenta a possibilidade de essa transformação chegar também à forma como os atores políticos constroem e justificam os seus argumentos.

Portugal oferece agora a possibilidade de observar parte desse processo quase enquanto acontece. Há documentação suficiente para comparar programas, discursos e enquadramentos antes e depois da entrada do CHEGA no Parlamento — e tempo ainda suficiente para evitar que a simples sequência dos acontecimentos seja confundida com uma explicação.

Talvez a pergunta mais interessante, por isso, não seja saber até que ponto os partidos tradicionais se aproximaram do CHEGA.

É perceber o que passou a parecer normal discutir, de que forma e com que vocabulário, depois de o CHEGA se tornar impossível de ignorar.


Referências

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