O Benfica e a erosão da sua própria identidade

Paulo Trindade

Maio 26, 2026

O Sport Lisboa e Benfica foi, durante grande parte do século XX, muito mais do que um clube de futebol. Foi uma das maiores instituições populares portuguesas, um espaço de pertença coletiva e uma referência simbólica que ultrapassava largamente o universo desportivo. Durante décadas, o Benfica representou uma ideia de continuidade nacional: um clube de massas, de memória, de comunidade e de participação. Mesmo durante o Estado Novo, quando a vida pública portuguesa era profundamente condicionada pelo regime, o Benfica preservava uma cultura associativa rara, com eleições disputadas, mobilização interna e uma dimensão democrática que contrastava com o ambiente político do país. Essa singularidade ajudou a construir uma aura muito própria em torno do clube.

Durante muito tempo, essa identidade parecia quase indestrutível. O Benfica não era apenas um vencedor; era um clube que se reconhecia a si próprio com facilidade. Os adeptos reconheciam as figuras, os ciclos, os símbolos e até uma certa estética emocional do clube. Havia continuidade. Havia memória. Havia a sensação de que o Benfica existia para lá dos resultados imediatos.

A partir dos anos 90, porém, essa imagem começou a degradar-se. O Benfica entrou numa fase de declínio desportivo, financeiro e institucional, marcada por sucessivas direções incapazes de preservar a estabilidade do clube. As presidências de Damásio e, sobretudo, de Vale e Azevedo ficaram associadas a desorganização, perda de credibilidade e fragilidade estrutural, deixando o Benfica numa situação particularmente vulnerável. Este período coincidiu com a ascensão prolongada do FC Porto, num contexto marcado por enorme desequilíbrio competitivo no futebol português e por um ambiente de suspeição permanente em torno das estruturas do jogo.

A discussão sobre o Apito Dourado nunca foi apenas judicial. Mesmo admitindo que muitas acusações ficaram aquém daquilo que a opinião pública chegou a imaginar, o dano simbólico foi profundo. O futebol português entrou numa lógica de guerra institucional, suspeição crónica e degradação reputacional. E o Benfica, habituado a ocupar o centro simbólico do futebol nacional, sentiu esse deslocamento quase como uma humilhação histórica.

Esse trauma coletivo ajuda a explicar muito do que veio depois. A chegada de Luís Filipe Vieira surge precisamente como resposta a um clube ferido, fragilizado e obcecado com a necessidade de recuperar poder. E é importante reconhecer que Vieira conseguiu, em vários aspetos, reconstruir o Benfica: modernizou infraestruturas, profissionalizou estruturas, estabilizou parcialmente as finanças e devolveu capacidade competitiva interna. O clube voltou a ganhar, reposicionou-se como força dominante em Portugal e conseguiu recuperar alguma relevância europeia.

Contudo, essa reconstrução teve custos elevados. O Benfica adaptou-se ao futebol moderno através de uma lógica cada vez mais empresarial, agressiva e dependente do mercado. Vieira rodeou-se de figuras pouco condignas da tradição histórica do clube, algumas com ligações a outros universos futebolísticos e empresariais que trouxeram para dentro da Luz suspeitas persistentes de favorecimento e irregularidades.

Mesmo que muitas investigações não tenham resultado em condenações judiciais definitivas, o dano reputacional foi profundo. O Benfica viu a sua imagem associada a um clima permanente de suspeição, contrastando fortemente com a aura de instituição popular e ética que cultivara durante décadas. Paralelamente, o estilo de liderança comprometeu, em vários momentos, a tradição democrática interna que o clube sempre ostentara — mesmo durante o Estado Novo. Algumas eleições decorreram sob forte contestação, com acusações de irregularidades e excessiva concentração de poder. O que outrora fora um espaço de participação, continuidade e pertença coletiva tornou-se, por vezes, um terreno de poder fechado, personalizado e profundamente dividido.

A ironia é que essa erosão se aprofundou precisamente quando o Benfica se tornou uma potência internacional na formação. Poucos clubes europeus produzem talento com a consistência do Benfica. João Félix, Rúben Dias, Bernardo Silva, Gonçalo Ramos ou João Neves são prova disso. O problema é que a formação benfiquista parece hoje funcionar mais como plataforma de exportação do que como núcleo de continuidade do plantel principal. O clube produz identidade, mas raramente a preserva.

E isso tem consequências profundas. Um jogador formado no Seixal não representa apenas valor de mercado; representa continuidade emocional, memória coletiva e reconhecimento simbólico. Quando esses jogadores saem demasiado cedo, o Benfica perde muito mais do que qualidade técnica. Perde referências internas, perde líderes naturais e perde a possibilidade de construir ciclos longos de identificação entre equipa e adeptos.

Ninguém exige que o Benfica recuse propostas irrecusáveis. O futebol europeu tornou-se financeiramente assimétrico ao ponto de clubes portugueses dificilmente conseguirem competir com a capacidade económica das grandes ligas. Mas existe uma diferença entre vender inevitavelmente e viver estruturalmente dependente da venda precoce. Vender um jogador por 120 milhões pode ser inevitável. Vender demasiado cedo por necessidade permanente transmite outra mensagem: a de um clube incapaz de proteger os seus próprios pilares identitários.

O caso de João Neves tornou-se particularmente simbólico nesse contexto. Não apenas pela qualidade do jogador, mas porque representava precisamente aquilo que o Benfica mais parece incapaz de conservar: formação, ligação emocional aos adeptos, liderança potencial e margem de crescimento desportivo. A sua permanência durante mais um ou dois anos poderia ter trazido estabilidade competitiva, continuidade tática, valorização financeira adicional e, sobretudo, uma sensação de construção sustentada. Em vez disso, o Benfica continua frequentemente preso a uma lógica de reinício permanente.

Essa sensação intensificou-se durante a presidência de Rui Costa. E talvez seja precisamente isso que torna o atual momento tão desconfortável para muitos benfiquistas. Rui Costa não era apenas um antigo jogador do clube. Era um dos últimos grandes símbolos emocionais do Benfica: produto da formação, figura consensual, rosto da mística benfiquista e ponte natural entre passado e presente. A expectativa implícita era a de que pudesse devolver estabilidade, continuidade e identidade ao clube.

Mas aconteceu quase o contrário.

Sob Rui Costa, o Benfica parece ter aprofundado a lógica de transitoriedade que já vinha de trás. Revoluções constantes no plantel, mudanças frequentes de rumo, dificuldade em consolidar referências duradouras e um mercado excessivamente ativo criaram a sensação de um clube permanentemente em reconstrução. Cada época parece começar do zero. E isso tem custos desportivos, financeiros e culturais.

Os custos financeiros tornam-se particularmente difíceis de ignorar quando o clube investe dezenas de milhões em contratações externas de risco, enquanto se mostra incapaz de preservar durante mais tempo os talentos que produz internamente. O contraste entre vendas relativamente prematuras e investimentos elevados em jogadores sem ligação estrutural ao clube alimenta inevitavelmente a perceção de perda de identidade.

Mas talvez o mais grave seja o desgaste simbólico. O Benfica foi durante décadas uma instituição reconhecível. Mesmo quando perdia, sabia quem era. Hoje, em muitos momentos, parece um clube que procura desesperadamente reencontrar uma narrativa coerente sobre si próprio.

É importante sublinhar que esta não é uma crítica nostálgica ao facto de o Benfica já não dominar a Europa. O futebol mudou demasiado para esse tipo de romantismo ingénuo. Clubes históricos como o Ajax também perderam centralidade competitiva face à globalização financeira do futebol. A diferença é que o Ajax continua reconhecível na sua filosofia, na sua cultura e na sua identidade desportiva. O Benfica, pelo contrário, parece muitas vezes oscilar entre modelos, estratégias e prioridades sem conseguir estabilizar uma gramática própria.

E talvez seja essa a crítica mais séria que hoje se pode fazer ao clube: não a de ter perdido poder europeu, mas a de ter perdido parte da sua capacidade de se reconhecer a si próprio.

O Benfica continua enorme. Continua popular. Continua central no futebol português. Mas há uma diferença entre sobreviver economicamente ao futebol moderno e preservar intacta a identidade histórica que transformou um clube de futebol numa das maiores referências coletivas do país.

E essa diferença começa hoje a tornar-se demasiado visível para ser ignorada.


Créditos

imagem de destaque – Wikimedia

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