Há cidades que, quando entram em crise, fazem barulho. Havana parece fazer o contrário. Apaga-se. Entre cortes de eletricidade, filas intermináveis por combustível e ruas cada vez mais vazias, a capital cubana aproxima-se de uma espécie de suspensão — como se o tempo tivesse abrandado até quase parar.
Tudo aponta para um colapso. A economia está paralisada, o Estado falha nas funções mais básicas e uma parte significativa da população já saiu do país. Ainda assim, há qualquer coisa que não encaixa nesta narrativa. Cuba parece estar a cair — mas não exatamente a desmoronar-se.
Talvez o problema esteja na forma como pensamos o colapso. Porque, ao contrário do que seria de esperar, os regimes não caem necessariamente quando deixam de funcionar. Por vezes, adaptam-se. Recuam. Reconfiguram-se. E é nesse movimento, discreto mas persistente, que Cuba hoje parece encontrar uma estranha forma de sobrevivência.
O colapso que não derruba regimes
A crise em Cuba deixou há muito de ser uma abstração. É visível, quotidiana, acumulativa. O país enfrenta apagões prolongados, escassez de alimentos e medicamentos, e uma economia praticamente imobilizada pela falta de combustível. Nos últimos anos, o turismo — uma das principais fontes de divisas — colapsou, e milhões de cubanos abandonaram a ilha, naquele que já é o maior êxodo da sua história recente.
Há, por isso, uma sensação crescente de que desta vez é diferente. Durante décadas, a ideia de que o regime cubano poderia cair parecia sempre adiada — um cenário recorrente, mas nunca concretizado. Agora, essa perceção mudou. A combinação entre as fragilidades internas e uma pressão externa mais agressiva, nomeadamente através do estrangulamento energético, criou uma situação que muitos consideram insustentável.
Mas é precisamente aqui que a narrativa do colapso começa a falhar. Porque a história de Cuba — e de muitos outros regimes — mostra que a deterioração material não se traduz automaticamente em transformação política. Estados podem deixar de funcionar plenamente sem, por isso, perder o controlo. Podem falhar na prestação de serviços básicos e, ainda assim, manter intactas as estruturas de poder.
O que está em causa não é a ausência de crise, mas a forma como ela é absorvida. E, nesse sentido, Cuba não é uma exceção histórica — é um exemplo particularmente claro de um padrão mais amplo: regimes que, mesmo em falência, encontram formas de persistir.
A mudança controlada
Se o colapso não garante a queda, o que pode então emergir de uma crise como a cubana? A resposta mais provável não é uma rutura, mas uma transição controlada — lenta, negociada e, sobretudo, interna ao próprio regime.
Os sinais já são visíveis. Apesar da retórica agressiva, a estratégia dos Estados Unidos não parece orientada para um derrube imediato, mas para um processo de pressão que force concessões graduais. Fala-se na substituição de figuras mais expostas, como o Presidente, mantendo intactas as estruturas fundamentais de poder. Mais do que uma mudança de regime, o que está em cima da mesa é uma reconfiguração do mesmo.
Do lado cubano, essa possibilidade não é necessariamente rejeitada. Ao longo da sua história, o regime mostrou uma notável capacidade de adaptação: legalizou o dólar nos anos 90, abriu parcialmente ao turismo, tolerou formas limitadas de iniciativa privada. Sempre que confrontado com a escassez, respondeu não com abertura política, mas com ajustamentos económicos cuidadosamente delimitados.
Hoje, esse padrão pode repetir-se sob novas condições. O controlo da economia por parte das forças armadas, a ausência de uma oposição organizada e a concentração do poder em redes internas tornam improvável uma transição democrática no sentido clássico. Pelo contrário, o mais plausível é que qualquer abertura seja mediada pelas mesmas elites que governam há décadas, convertendo influência política em poder económico.
Neste contexto, a mudança deixa de significar rutura. Passa a significar continuidade por outros meios. E é precisamente essa possibilidade — a de uma transformação sem alternância — que redefine o que entendemos por “colapso” em Cuba.
O abandono de Cuba
Se durante décadas Cuba conseguiu sobreviver, foi também porque nunca esteve verdadeiramente sozinha. A União Soviética primeiro, a Venezuela depois, e, de forma mais difusa, uma rede de solidariedade política na América Latina, funcionaram como amortecedores externos de sucessivas crises internas. Hoje, esse contexto desapareceu.
O que se observa é um isolamento progressivo, tanto económico como político. A interrupção do fornecimento de petróleo — primeiro pela queda do apoio venezuelano, depois pela pressão direta dos Estados Unidos sobre outros potenciais fornecedores — deixou o país sem a sua principal fonte de energia. Mas mais significativo do que a escassez em si é o facto de não haver quem a compense.
Mesmo governos tradicionalmente próximos de Cuba, incluindo executivos de esquerda na América Latina, têm evitado confrontar diretamente Washington. Países como México ou Brasil, que em outros momentos teriam desempenhado um papel de apoio ativo, limitam-se agora a ajuda humanitária, receosos das consequências económicas e diplomáticas de um alinhamento mais assertivo. O custo de apoiar Cuba tornou-se demasiado elevado.
Este afastamento não é apenas circunstancial — é sintomático de uma mudança mais profunda. Cuba deixou de ser vista como um símbolo de resistência e passou a ser percecionada, em muitos casos, como um problema a gerir ou a evitar. A erosão do seu capital político internacional acompanha o desgaste interno do regime, reforçando a sua vulnerabilidade.
Mas este abandono tem um efeito paradoxal. Ao reduzir as alternativas externas, aumenta a dependência de uma solução negociada com os Estados Unidos — precisamente o ator que mais pressão exerce sobre o país. Cuba não está apenas em crise; está cada vez mais confinada a um único horizonte possível de saída.
E, ainda assim, mesmo neste cenário de isolamento, a lógica da continuidade mantém-se. A ausência de aliados não conduz necessariamente a uma rutura, mas pode, pelo contrário, acelerar uma adaptação pragmática às novas condições. Mais uma vez, não é o colapso que determina o desfecho — é a forma como ele é gerido.
Conclusão
Cuba não está a escapar ao colapso. Está a redefini-lo. O que se observa hoje não é a resistência de um modelo que funciona, mas a capacidade de um regime para persistir mesmo quando tudo à sua volta falha.
Ao longo de décadas, a expectativa foi sempre a mesma: que a crise acabaria por derrubar o sistema. Mas essa leitura parte de um pressuposto que a realidade tem vindo a desmentir — o de que o desgaste material conduz inevitavelmente à mudança política. Em Cuba, como noutros contextos, essa relação revela-se mais frágil do que parece.
O mais provável não é uma queda súbita, mas uma transformação silenciosa. Uma adaptação que preserva o essencial enquanto altera o suficiente para garantir sobrevivência. Não o fim do regime, mas a sua continuação por outras formas.
Talvez seja esse o verdadeiro significado do momento atual. Não o colapso de Cuba, mas a demonstração de que, no século XXI, os regimes raramente caem como esperamos. Em vez disso, aprendem a não colapsar.
Créditos e referencias
Imagem de destaque – Wikimedia Commons
Is Cuba Next? – Jon Lee Anderson