Venezuela: do “novo realismo” ao saque assumido

Paulo Trindade

Fevereiro 9, 2026

Quando escrevi que a Venezuela se tinha tornado um laboratório do novo realismo ocidental — onde a estabilidade passou a valer mais do que a democracia — estava a descrever uma mudança silenciosa, gradual, quase envergonhada. Hoje, essa mudança deixou de ser discreta. Tornou-se explícita.

O recente artigo do The New York Times descreve, com detalhe factual, como a administração de Donald Trump avançou para o controlo direto da indústria petrolífera venezuelana após a captura de Nicolás Maduro. Não se trata já de influência, mediação ou pressão diplomática. Trata-se de apropriação.

É o fim de um tabu histórico.


Do pragmatismo à força

No texto anterior, argumentei que Washington abandonara progressivamente a aposta na reconstrução democrática da Venezuela, optando por uma política de gestão:

  • garantir previsibilidade,
  • estabilizar fluxos energéticos,
  • evitar o caos regional,
  • normalizar relações económicas.

Essa escolha não foi apresentada como ideal, mas como inevitável. Em nome do “realismo”, sacrificavam-se princípios.

O que agora vemos é o passo seguinte dessa lógica: quando a democracia deixa de ser central, quando a legitimidade deixa de ser prioritária, o interesse material tende a ocupar todo o espaço.

A estabilidade transforma-se em domínio.


A naturalização da apropriação

Durante décadas, mesmo nas intervenções mais controversas, os Estados Unidos evitaram assumir o controlo direto de recursos estrangeiros. No Irão, no Kuwait, no Iraque, havia influência, pressão, contratos — mas não posse formal.

Essa contenção funcionava como um limite simbólico: havia uma linha que não se cruzava.

Hoje, essa linha foi apagada.

A administração norte-americana já não sente necessidade de disfarçar. Assume que pode “tomar” petróleo como parte da sua política externa. A linguagem da cooperação é substituída pela linguagem da posse.

Não é apenas uma mudança tática. É uma mudança civilizacional na forma como o poder se entende.


Estabilidade sem legitimidade

O problema central desta evolução não é apenas jurídico ou diplomático. É político.

No meu artigo anterior, sublinhei que a estabilidade sem legitimidade é sempre frágil. Pode durar algum tempo, mas depende da força, não do consentimento.

A apropriação de recursos acelera essa erosão.

Nas redes sociais, a intervenção já não é vista como estratégia, mas como pilhagem. Confunde-se Estado, interesse nacional e enriquecimento privado. A política externa é reinterpretada como crime organizado à escala global.

Mesmo que esta perceção seja exagerada, o seu impacto é real.

Sem legitimidade, não há ordem duradoura.


O paradoxo energético

Há ainda um paradoxo difícil de ignorar: os Estados Unidos já não dependem estruturalmente do petróleo venezuelano. São hoje exportadores líquidos de energia.

A motivação não é necessidade.

É poder.

É demonstração de força.

É sinalização interna e externa.

É política identitária aplicada à geopolítica.


Um precedente perigoso

O que acontece na Venezuela não fica na Venezuela.

Quando uma grande potência normaliza a apropriação direta de recursos, envia uma mensagem clara ao sistema internacional:

  • soberania é relativa,
  • direitos são negociáveis,
  • força cria legitimidade.

Outros atores aprenderão a lição.

O multilateralismo enfraquece.
As normas tornam-se decorativas.
O mundo aproxima-se de uma lógica pré-institucional.


Conclusão: o realismo sem travões

O “novo realismo” começou como uma adaptação pragmática a um mundo instável. Transformou-se, passo a passo, numa política sem horizonte normativo.

Primeiro sacrificou a democracia.
Depois relativizou a soberania.
Agora assume a apropriação.

Quando os limites desaparecem, o realismo deixa de ser prudência e torna-se cinismo.

A curto prazo, pode produzir ganhos.
A médio prazo, gera ressentimento.
A longo prazo, mina a ordem que o próprio poder precisa para sobreviver.

A Venezuela é hoje o espelho dessa transformação.

E o reflexo não é tranquilizador.


Referências e leituras complementares

Michael Crowley, “Trump’s Oil Grab in Venezuela Shatters an American Taboo“, New York Times

A Venezuela e o novo realismo: quando a estabilidade vale mais do que a democracia

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