O árbitro e o dono do jogo

Paulo Trindade

Janeiro 28, 2026

A campanha presidencial tem sido frequentemente lida como um confronto entre dois estilos pessoais ou duas retóricas opostas. Essa leitura é curta. O que está verdadeiramente em causa não é um debate, nem sequer um conjunto de debates, mas duas concepções radicalmente diferentes do poder político — e, sobretudo, do papel do Presidente da República.

António José Seguro quer ser Presidente da República. Não no sentido simbólico ou ornamental, mas no sentido clássico do cargo: árbitro do sistema, garante institucional, figura de contenção num espaço público cada vez mais saturado de conflito. A sua campanha foi coerente com essa ambição desde o início: poucos anúncios, poucas promessas executivas, insistência na previsibilidade, na exigência silenciosa e na ideia de que o Presidente não governa — enquadra.

André Ventura, pelo contrário, nunca quis ser árbitro. O árbitro limita-se a aplicar regras que não escolheu e a regular um jogo que não controla. Ventura quer outra coisa: quer ser o dono do jogo. Aquele que define o campo, escolhe os temas, impõe o ritmo e transforma cada conflito numa prova de força política.

É por isso que a sua campanha presidencial parece, tantas vezes, deslocada do cargo que formalmente disputa. Ventura não fala como candidato a Belém; fala como líder da oposição, como tribuno permanente, como alguém que ambiciona hegemonizar a direita no plano simbólico e emocional — mesmo sabendo que, institucionalmente, essa liderança pertence hoje ao primeiro-ministro e à maioria parlamentar que o sustenta.

As presidenciais são, para Ventura, um meio privilegiado: exposição total, personalização máxima, confronto directo. Ganhar seria útil; perder não é fatal. O objectivo central é sair reforçado como figura incontornável da direita, como aquele a quem todos têm de responder, mesmo governando.

O debate recente entre Seguro e Ventura foi revelador precisamente porque não alterou nada — apenas confirmou o que a campanha já vinha mostrando. Seguro falou como quem se prepara para um mandato inteiro; Ventura falou como quem pensa no dia seguinte. Um aceitava implicitamente a existência do Governo e preparava-se para o escrutinar; o outro comportava-se como se estivesse já em campanha legislativa.

Nada disto é acidental. O populismo, por natureza, desconfia de árbitros. Vive do conflito permanente, da polarização, da ideia de que o sistema está viciado e precisa de ser apropriado, não regulado. Um Presidente que modera, exige e contém é um obstáculo; um Presidente que amplifica o choque seria uma oportunidade. Ventura escolheu claramente o lado.

Seguro, pelo contrário, aposta numa ideia hoje quase contracultural: a de que a estabilidade democrática é um activo político. Não entusiasma, não inflama, não mobiliza multidões — mas oferece algo que começa a escassear: previsibilidade institucional num tempo de ruído constante.

É por isso que esta eleição não é apenas entre dois candidatos. É entre duas formas de entender o poder. Uma vê o cargo presidencial como contrapeso; a outra vê qualquer cargo como palco. Uma aceita limites; a outra vive de os tensionar. Uma quer garantir o jogo; a outra quer possuí-lo.

Talvez seja essa a escolha real colocada aos eleitores: não entre esquerda e direita, nem entre passado e futuro, mas entre um Presidente que arbitra e um político que nunca aceitou não mandar no jogo.

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