“Tudo é Israel”: a metáfora de um território sequestrado

Paulo Trindade

Outubro 7, 2025

O episódio relatado na reportagem do Público, em que um soldado israelita grita num checkpoint “Isto é Israel, aquilo é Israel, tudo é Israel!”, não é apenas uma cena de tensão num posto de controlo. É uma metáfora de décadas de ocupação e de uma realidade política onde a negação da Palestina se tornou prática quotidiana.

A Cisjordânia vive sob ocupação israelita desde 1967. Em teoria, os Acordos de Oslo (1993-1995) criaram uma divisão administrativa entre áreas sob controlo palestiniano e israelita. Na prática, a expansão de colonatos, as demolições de casas, a declaração de “zonas militares” e a rede de checkpoints transformaram grande parte do território num arquipélago de ilhas palestinianas cercadas. O relato de Hebron, com casas palestinianas cercadas por bandeiras israelitas e postos militares, é disso exemplo claro.

A reportagem dá voz a Ghandi e a Ali, dois palestinianos que resistem em Hebron e em Masafer Yatta. Ambos enfrentam o mesmo padrão: violência de colonos, intimidação militar, destruição repetida. Reconstruir uma casa, reparar um carro, manter uma comunidade viva torna-se, assim, um ato político. A resistência já não é a do confronto armado, mas a da sobrevivência quotidiana – uma recusa em desaparecer.

Os números da ONU revelam a assimetria do conflito: em dois anos, quase mil palestinianos mortos na Cisjordânia, contra 41 israelitas. Mais de 3000 deslocados, metade deles crianças. Estes dados contrastam com a narrativa oficial israelita, que justifica restrições como medidas de “segurança”, mas que não se aplicam aos colonos que ocupam os mesmos territórios.

O grito “Tudo é Israel” traduz de forma brutal esta lógica. Não é apenas a voz de um soldado exaltado, é o reflexo de uma política de Estado que, na ausência de negociações de paz, avança para a anexação de facto. Ao negar a própria possibilidade de Palestina, Israel impõe uma leitura única do território: cada pedra, cada estrada, cada casa, tudo lhe pertence.

O problema é que a história mostra que a negação do outro raramente conduz à paz. Hebron e Masafer Yatta não são apenas lugares de resistência física, são também lugares de memória. E enquanto houver quem reconstrua depois da destruição, quem insista em viver no meio da adversidade, a frase “tudo é Israel” será sempre contestada pelo simples facto da presença palestiniana.

A reportagem mostra isso: a ocupação não é apenas militar, é também psicológica e simbólica. Mas a reconstrução — por mais frágil que seja — continua a ser a resposta que impede a vitória total da lógica de apagamento. É neste ciclo de destruição e reconstrução que se revela a tragédia maior: um conflito congelado, em que o presente é sequestrado e o futuro continua adiado.

Aldeia de Tuba, em Masafer Yatta.
Carolina Amado in jornal Publico

Aldeia de Tuba, em Masafer Yatta. Carolina Amado in jornal Publico

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