Autoridade, extremismo e a erosão do Estado de direito
Há momentos em que a linguagem política deixa de servir. Quando cidadãos descrevem agentes do Estado como “milícias de uniforme”, não estão a produzir uma análise rigorosa; estão a tentar nomear uma experiência para a qual o vocabulário institucional se tornou insuficiente. É nesse intervalo — entre o exagero retórico e a intuição moral — que se percebe que algo mais profundo se deslocou.
O que se passa em Minneapolis, após a morte de Alex Pretti, não é apenas um novo episódio de violência policial ou um excesso isolado na aplicação da política de imigração. É um ponto de condensação onde três planos se cruzam: a vivência concreta do poder, a sua instrumentalização política e a falha dos mecanismos de responsabilização. Juntos, esses planos revelam um fenómeno mais inquietante: a progressiva semelhança funcional entre a autoridade democrática e práticas antes associadas ao extremismo informal.
Quando a metáfora deixa de soar absurda
Dizer que uma agência federal “parece” uma milícia não significa afirmar que o seja. Significa que, na experiência quotidiana dos cidadãos, as diferenças deixaram de ser claras. Máscaras, anonimato, armamento ostensivo, actuação em bairros civis, uso recorrente da força e ausência de explicação posterior produzem uma percepção de ocupação, não de administração pública.
A política vive tanto de legalidade como de reconhecimento. Um Estado pode agir dentro da lei e, ainda assim, perder legitimidade se os seus actos deixam de ser reconhecidos como razoáveis, proporcionais ou humanos. É nesse ponto que a metáfora emerge: não como acusação jurídica, mas como diagnóstico moral.
Do extremismo como actor ao extremismo como método
Durante anos, grupos como os Proud Boys foram tratados como marginais barulhentos: violentos, sim, mas exteriores ao Estado. O erro dessa leitura foi não perceber que a sua importância não residia na força material, mas no modelo comportamental que ensaiavam.
O que hoje se observa não é a infiltração desses grupos no Estado, mas algo mais subtil: a adopção, por parte do próprio poder público, de técnicas emocionais e simbólicas que antes identificávamos como extremistas. O extremismo deixa de ser um actor político para se tornar um método de governação.
A estratégia da tensão como forma de governo
A morte de Alex Pretti ocorre num contexto que dificilmente pode ser descrito como acidental. Minneapolis surge como um espaço de teste: uma cidade politicamente adversa, com tradição de mobilização cívica, onde a escalada securitária gera reacções previsíveis.
Este mecanismo — provocar tensão para depois governar sobre ela — é antigo. O que muda é a sua naturalização em democracias consolidadas. O conflito deixa de ser algo a gerir e passa a ser um recurso político. A violência deixa de ser um limite e transforma-se em argumento.
Legalidade sem legitimidade
A resposta institucional ao caso Pretti expõe um paradoxo central. Em nome da “lei e da ordem”, a autoridade federal resiste a investigações independentes, dificulta a recolha de provas por autoridades locais e classifica rapidamente a vítima como ameaça extrema.
Uma força armada que actua sem identificação clara, sem registo sistemático e sem escrutínio externo aproxima-se perigosamente da lógica da impunidade — o traço distintivo de qualquer milícia.
Quando a cidadania entra em modo defensivo
Talvez o sinal mais claro da crise seja este: cidadãos comuns sentem necessidade de filmar constantemente agentes do Estado para se protegerem. Não por militância, mas por prudência.
O que emerge não é uma radicalização clássica, mas uma auto-defesa cívica difusa — professores, pais, igrejas, vizinhos. Pessoas que não se reconhecem como activistas, mas como protectores.
O colapso do monopólio moral da força
O Estado moderno não se define apenas pelo monopólio da violência, mas pelo monopólio da violência considerada legítima. Quando essa legitimidade se fragmenta, o poder pode manter-se formalmente intacto, mas torna-se politicamente instável.
Conclusão provisória
Quando o Estado começa a parecer uma milícia, não é porque perdeu força. É porque perdeu imaginação democrática. Governar passa a significar impor; ordenar substitui convencer; e a política reduz-se à gestão do medo.
O “inverno” que se vive em Minneapolis não é climático. É político. E instala-se quando deixamos de estranhar o que antes seria inaceitável.