Quando a arte não grita, mas resiste: Estética contra a nova vaga autoritária

Paulo Trindade

Junho 6, 2025

Introdução: a arte como ameaça

Todo regime quer uma história que possa controlar. Em todo o mundo, governos autoritários aprenderam que controlar a arte é um atalho para moldar a percepção. A arte, na sua forma mais verdadeira, recusa-se. Não marcha em formação. Desvia-se, questiona, sonha, distorce – e o pior de tudo para os autoritários: ouve as margens.

Por isso, ao longo da história, governos repressivos – de fascistas a fundamentalistas – atacaram artistas, cortaram apoios, censuraram imagens e queimaram livros. Porque mesmo quando frágil ou obscura, a arte remodela a percepção – e a percepção é o campo de batalha da ideologia.

Neste artigo, exploramos por que a cultura independente se torna um alvo privilegiado para forças autoritárias, nacionalistas e economicamente conservadoras. E porque a guerra contra a cultura nunca é apenas sobre cultura: é sobre controlo.

Por que a arte é perigosa para o poder

A arte não obedece. Um poema pode significar cinco coisas ao mesmo tempo. Uma pintura pode ser ferida, prece e grito. Uma performance pode confundir, assombrar, encantar – e nunca se explicar.

  • Cria ambiguidade onde o poder exige clareza.
  • Amplifica o indizível.
  • Torna visível o que devia permanecer invisível.
  • Gera emoção onde a propaganda apenas instrui.

Arte sancionada vs. arte dissidente

Nem toda a arte é bem-vinda. O poder adora a arte – desde que obedeça. Ao longo da história, regimes autoritários promoveram uma estética oficial: heróica, sentimental, inequívoca.

  • Realismo socialista soviético
  • “Jardim Nacional de Heróis Americanos” (Trump)
  • Festivais folclóricos nacionalistas (Orbán)
  • Estética hindutva (Modi)

A mensagem é clara: podes criar, desde que te conformes.

Quando a história se recusa a obedecer

Os regimes autoritários não temem apenas o futuro. Temem também o passado. A história é rebelde. Não se alinha com mitos patrióticos. Contém massacres, resistências, colonizadores e colonizados. Quando a história se recusa a obedecer, o poder tenta reescrevê-la.

Artistas, escritores e curadores fazem perguntas que nenhum manual escolar quer enfrentar:

  • Quem é lembrado?
  • Quem decide o que é motivo de orgulho nacional?
  • Quem desaparece quando a história é higienizada?

A arte cria contra-monumentos. Memoriais para o negado. Obras que mantêm viva a memória dos que foram silenciados. E uma memória viva não pode ser controlada: vagueia, protesta, contradiz. E prepara a resistência que vem.

IV. Exemplos de resistência estética

  • Paula Rego: enfrentou a ditadura portuguesa com desenhos que davam “cara ao medo”.
  • Crack Rodríguez: artista salvadorenho que usa performance como forma de protesto.
  • Banksy: transforma as ruas em telas de subversão com humor e crítica social.

O caso português: ataque à cultura crítica

Com o crescimento do CHEGA, temos assistido a uma ofensiva simbólica contra a cultura progressista. O partido acusa a arte contemporânea de ser “woke”, “elitista” ou “ideológica”. Defende o fim de apoios públicos a projectos que não celebrem valores “tradicionais”.

Esta retórica tem efeitos reais: pressão sobre câmaras municipais, deslegitimação de artistas, cortes de financiamento. Tudo isto num contexto em que a esquerda cultural perdeu parte do seu enraizamento social.

Organizar a resistência: passado e futuro

Durante o salazarismo, movimentos como o neo-realismo e o MUD Juvenil reuniram artistas, intelectuais e militantes em torno da resistência cultural. Hoje, apesar da existência de estruturas como a CENA-STE, a maioria dos artistas continua dispersa e desprotegida.

Reorganizar a resistência cultural exige redes, consciência de classe e alianças com movimentos sociais. E exige lembrar o passado: o que se conquistou, o que se perdeu, e o que ainda pode ser feito.

Conclusão: o gesto que sobrevive ao ruído

A arte pode não mudar governos. Mas muda percepções. E isso, para quem quer um povo obediente, é insuportável.

Quando a arte não grita, resiste. E quando resiste, oferece outra forma de ver o mundo. E isso basta para ser perigosa. Porque toda visão nova carrega em si a semente da mudança.

Referências

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