O fascismo domesticado: sobre o regresso do lobo, agora de casaco às riscas

Paulo Trindade

Dezembro 14, 2025

Não sei se é o mundo que mudou ou se fomos nós que nos habituámos a sons de sirene. Durante décadas, o fascismo era uma coisa monumental e óbvia: tanques, estátuas, hinos, o líder com voz de trovão e punho no ar. Era fácil reconhecê-lo. Era quase confortável na sua brutalidade explícita — uma espécie de mal cinematográfico, o inimigo público número um.

O problema é que o fascismo percebeu que ser fascista se tornou má ideia de marketing. A história não foi simpática com ele. Então tratou de reaparecer — mas domesticado, sorridente, televisivo. Como um lobo com casaco às riscas e perfume barato.

Hoje, a nova extrema-direita apresenta-se como aquilo que a democracia promete: “o povo”. Não quer derrubar o sistema — quer habitá-lo, reformá-lo, temperá-lo. Quer limpar-lhe as bordas, aparar os excessos. “A liberdade está em risco.” “Perdemos a identidade.” “A criminalidade está descontrolada.” “Os estrangeiros levam-nos tudo.” É sempre o mesmo refrão: há um inimigo, há uma decadência, e há um salvador — nacional, puro, imaculado.

A velha Europa construiu barreiras antifascistas feitas de mármore constitucional. Proibiu símbolos, milícias, discursos raciais. Mas agora, os partidos da nova direita radical já não usam símbolos. Não falam de “raça”, falam de “cultura”. Não defendem a violência, defendem “lei e ordem”. Não querem um líder supremo, querem “referendos” e “vontade popular”. A linguagem mudou — o conteúdo nem tanto.


O novo inimigo: não o tanque, mas a infiltração

O antifascismo antigo era binário: ou fascista ou democrata. Hoje, a fronteira passeia-se no meio de nós. Esta extrema-direita não invade — infiltra-se. Não conquista o poder em marcha militar; vence-o a caminho de urna. Entra no parlamento como quem entra numa casa alheia: devagar, cordial, e começa a mover os móveis com um sorriso.

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt avisam-nos de uma coisa fundamental: as democracias não morrem necessariamente de golpe militar; morrem por erosão institucional3. A captura gradual dos tribunais, a intimidação da imprensa, a normalização da crueldade política, as leis que reduzem liberdades sem nunca as extinguirem de uma vez. Um livro sobre a morte lenta, e sobre a nossa incapacidade de a reconhecer enquanto acontece.

O fascismo clássico dinamitava. A nova direita radical escava. A casa não cai — apodrece.


Não lhes chamemos fascistas: agradecem

É fácil — quase terapêutico — chamar-lhes fascistas. Dá-nos um eixo moral confortável, a certeza histórica de que “nós estamos certos” e “eles são monstros”. Só que o insulto é gasolina. Chamá-los “fascistas” é oferecer-lhes a narrativa que mais desejam: a de vítimas da elite cultural, do “politicamente correto”, dos jornalistas pagos, da academia marxista. Tudo o que lhes atiramos volta embrulhado em ressentimento e convertido em votos.

Cas Mudde descreve esta metamorfose com simplicidade cirúrgica: a nova extrema-direita não pretende destruir a democracia — pretende remodelá-la a partir de dentro1. O seu ADN não é o totalitarismo clássico, mas um tripé tão eficaz quanto subtil: nativismo (o “nós” contra “eles”), autoritarismo (a ordem acima da liberdade) e populismo (o povo puro contra as elites corruptas)2.

O fascismo do século XX era hierárquico e elitista. A nova extrema-direita é plebeia no discurso e aristocrática na prática: promete dar voz ao povo, mas governa para poucos.


A erosão quotidiana

O que hoje chamamos “regresso do fascismo” não chega com botas e capacetes. Chega em pacotes legislativos. Em tweets. Em programas televisivos com público. Em sondagens onde o medo é vencedor. Chega com a normalização do absurdo: o imigrante que nos rouba empregos, o professor que é inimigo da tradição, o ambientalista que quer destruir a economia. Chega com a redução da política a um ringue de insultos e humilhações.

Roger Eatwell e Matthew Goodwin mostram como este tipo de discurso oferece algo muito poderoso: pertencimento4. A política como alívio emocional, como tribo identitária para quem se sente abandonado, humilhado ou invisível. A nova extrema-direita não resolve os problemas: oferece culpados. E isso basta.


O antifascismo que envelheceu

Quando se diz que “o antifascismo está desatualizado”, não é uma questão de lei — é uma questão de linguagem. As constituições procuram o fascismo do passado, enquanto os tribunais e partidos enfrentam o fascismo do presente. Procuram milícias e líderes carismáticos; encontram hashtags e influencers. O antifascismo procura bomba; a extrema-direita usa boomerang.

A resposta não é proibir ideias — isso só as mitifica. A resposta é mais incómoda: defender a democracia liberal com obstinação. O pluralismo, os tribunais independentes, a dignidade humana como princípio inegociável. A coragem de viver com quem pensa diferente, sem fantasias de pureza cultural ou moral.

Pippa Norris e Ronald Inglehart lembram-nos que parte deste fenómeno é reação cultural5. As sociedades mudaram demasiado depressa para muitos — e a extrema-direita conseguiu ser a única a oferecer-lhes narrativa. Se a esquerda não percebe, perde; se o centro ignora, implode.


O que já perdemos sem perceber

Não veremos a “marcha sobre Roma”. Já vimos, isso sim, a marcha sobre o algoritmo. Não veremos a tomada de um parlamento num clarim. Veremos a sua colonização em nome da “maioria silenciosa”. Não veremos campos de concentração; veremos campos retóricos onde a dignidade humana começa por ser exceção. Um direito é retirado, depois outro, e outro — sempre em nome da proteção.

Ruth Wodak analisa isto com ironia fria: o medo tornou-se política pública7. O medo do estrangeiro, do multiculturalismo, do feminismo, do ecologismo, do que quer que seja que desafie a monotonia da existência nacional.

O fascismo regressará sempre que estivermos demasiado distraídos para defender a liberdade. Não com botas de couro — com blazers e powerpoints.


Notas de rodapé / Referências

  1. Cas Mudde – Populist Radical Right Parties in Europe (Cambridge University Press, 2007).
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  2. Cas Mudde – The Far Right Today (Polity Press, 2019).
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  3. Steven Levitsky & Daniel Ziblatt – How Democracies Die (Crown, 2018).
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  4. Roger Eatwell & Matthew Goodwin – National Populism: The Revolt Against Liberal Democracy (Pelican, 2018).
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  5. Pippa Norris & Ronald Inglehart – Cultural Backlash: Trump, Brexit, and Authoritarian Populism (Cambridge University Press, 2019).
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  6. Ruth Wodak – The Politics of Fear (Sage, 2015).
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