I — O futuro deixou de ser abstrato
Durante muito tempo, falar do futuro da Europa foi um exercício confortável. Um debate estratégico, quase académico, que podia ser adiado sem grandes custos. As grandes decisões pareciam sempre pertencer a um horizonte distante, enquanto o presente era gerido com pragmatismo técnico e consensos sucessivos.
Esse tempo terminou. O futuro europeu deixou de ser uma abstração porque as pressões — externas e internas — comprimiram o calendário político. A questão já não é se a Europa terá de se redefinir, mas em que condições o fará e com que grau de consciência. Não por impulso, mas por escolha. Ou, no limite, por necessidade.
Este ensaio não parte de soluções nem de modelos fechados. Parte de um reconhecimento mais simples e mais exigente: antes de decidir o que a Europa deve ser, é preciso identificar claramente os focos de tensão que condicionam qualquer caminho possível.
II — Focos internos que não podem ser ignorados
Há uma tentação recorrente de explicar as dificuldades europeias sobretudo a partir do exterior — das grandes potências, das crises globais, das mudanças no sistema internacional. Essa leitura é incompleta. Muitos dos dilemas atuais da Europa são internos.
O crescimento do populismo é talvez o sinal mais visível. Não como fenómeno homogéneo, nem como simples radicalização ideológica, mas como sintoma de um mal-estar mais profundo: a perceção de distância entre decisão e representação, entre poder e responsabilidade. Onde a política parece difusa, técnica ou excessivamente mediada, o apelo à soberania imediata ganha força.
A isto soma-se um défice estrutural de decisão política. A Europa governa bem em muitos domínios, mas decide pouco nos momentos-chave. O consenso, que foi durante décadas uma virtude estabilizadora, transformou-se por vezes num mecanismo de adiamento permanente. Não escolher passou a ser apresentado como prudência.
Por fim, há uma fragmentação discursiva crescente. A Europa fala várias linguagens políticas ao mesmo tempo: federal em certos momentos, intergovernamental noutros, normativa no exterior, defensiva no interior. Essa multiplicidade não é sinal de pluralismo saudável quando impede a formação de uma direção reconhecível.
Sem enfrentar estes focos internos, qualquer projeto europeu futuro corre o risco de nascer frágil — ou de não nascer de todo.
III — Defesa europeia: avanço real, bloqueio político
A defesa europeia é um bom exemplo desta tensão entre progresso e limite. Há avanços concretos: maior coordenação, investimento crescente, iniciativas conjuntas que seriam impensáveis há alguns anos. O diagnóstico está feito: depender indefinidamente de garantias externas tornou-se um risco.
Mas o bloqueio surge sempre no mesmo ponto. Quem decide? Em nome de quem? E com que legitimidade democrática?
Sem resposta clara a estas perguntas, a defesa europeia tende a permanecer num registo técnico-operacional. Funciona enquanto cooperação, mas hesita como estratégia. E uma defesa comum sem decisão política comum dificilmente resiste a crises prolongadas ou a divergências profundas entre Estados.
Aqui, o problema não é falta de meios, mas ambiguidade política. Enquanto esta persistir, o avanço será real, mas insuficiente.
IV — O lugar do Reino Unido: fora, mas inevitável
O papel do Reino Unido merece uma reflexão própria. A sua saída da União não eliminou a sua relevância europeia. Pelo contrário, tornou-a mais complexa.
Historicamente, o Reino Unido nunca foi um participante plenamente alinhado com o projeto de integração política profunda. Foi sempre um ator europeu com vocação atlântica, defensor do equilíbrio mais do que da fusão. O Brexit formalizou essa distância, mas não dissolveu a interdependência.
Em matéria de segurança, diplomacia e projeção estratégica, o Reino Unido continua a ser um ator central. Qualquer arquitetura europeia futura que o ignore poderá ser coerente do ponto de vista institucional, mas será estrategicamente frágil. Ao mesmo tempo, a sua integração plena num projeto político europeu mais profundo parece improvável no curto prazo.
Isto obriga a Europa a pensar modelos mais flexíveis, que reconheçam que o seu futuro não coincide automaticamente com os limites formais da União Europeia, mas com uma geografia política mais ampla.
V — Possibilidades abertas, escolhas difíceis
Perante este quadro, várias possibilidades estão em cima da mesa — nenhuma neutra, nenhuma isenta de custos.
Manter o modelo atual oferece estabilidade relativa, mas arrisca aprofundar a irrelevância estratégica num mundo de blocos coesos. Avançar para uma Europa a várias velocidades ou para um núcleo duro permitiria maior capacidade de decisão, mas aumentaria tensões internas e desigualdades políticas. Uma integração política mais profunda reforçaria a coerência e a autonomia, mas exigiria um salto democrático e simbólico que não pode ser feito sem consentimento claro das sociedades.
O ponto central é este: não há caminho sem perdas. O erro não está em escolher um deles, mas em continuar a agir como se a escolha pudesse ser evitada.
Fecho — A escolha que ainda não foi feita
A Europa ainda dispõe de margem para decidir o seu futuro. Mas essa margem está a diminuir. O tempo da ambiguidade confortável aproxima-se do fim, pressionado por um mundo mais competitivo e por sociedades internas mais exigentes.
Este ensaio não pretende indicar o caminho certo, mas sublinhar uma exigência mínima: o futuro europeu não pode continuar a ser apenas administrado. Terá de ser assumido. Isso implica olhar para fora, sim, mas sobretudo olhar para dentro — para as suas fragilidades, as suas divisões e as suas possibilidades reais.
Antes de decidir o que a Europa quer ser, é preciso reconhecer que continuar indefinidamente a adiar essa decisão já não é neutralidade. É uma escolha. E uma escolha com consequências.