Da liberdade ao radicalismo? A metamorfose da Iniciativa Liberal em Portugal

Paulo Trindade

Junho 7, 2025

Quando nasceu, a Iniciativa Liberal (IL) apresentava-se como um partido diferente: liberal nos costumes, defensor da economia de mercado, pró-europeu e transparente. Era uma lufada de ar fresco no espectro partidário português, dominado por dinossauros ideológicos e estruturas envelhecidas. A sua promessa era simples e clara: mais liberdade, menos Estado, mas sem deixar ninguém para trás. Um partido à imagem dos liberais do norte da Europa.

Mas algo mudou.

Com a saída de João Cotrim de Figueiredo da liderança e a ascensão de Rui Rocha, a IL começou a ganhar um novo tom. Não houve uma rutura formal com o passado, mas sim uma reconfiguração ideológica. Aos poucos, o discurso tornou-se mais agressivo, os alvos mais ideológicos, e a liberdade passou a significar algo mais próximo do “cada um por si” do que da inclusão plural que marcava o liberalismo fundacional.

Essa transição ficou ainda mais evidente com a ascensão de figuras como Mariana Leitão. Jovem, combativa, mediática, Leitão é hoje um dos rostos mais visíveis da IL e simboliza uma nova ortodoxia: o Estado é visto como um obstáculo, os impostos como roubo, e a solidariedade como dependência. É também uma admiradora assumida de Javier Milei, o presidente argentino que quer “dinamitar o Estado”. O elogio a Milei, aprovado na última convenção do partido, marca um ponto de não retorno: a IL aproxima-se agora, não do liberalismo clássico, mas do libertarismo radical.

Mas o que é, afinal, o libertarismo? Trata-se de uma corrente política que defende a mínima intervenção do Estado na vida dos cidadãos, tanto na economia como nas relações sociais. Em teoria, valoriza ao máximo a liberdade individual. Na prática, recusa quase todos os instrumentos de proteção social, regulação económica e redistribuição fiscal. Não se trata de reformar o Estado: é uma tentativa de o substituir por um mercado puro.

Essa transição está patente nas propostas concretas da IL: um sistema de pensões parcialmente privatizado, com contas individuais de capitalização; um modelo de vouchers para a educação, permitindo que o financiamento público seja usado em escolas privadas; o “SUA-Saúde“, que abre espaço à subcontratação extensiva de serviços de saúde (Wikipedia – Iniciativa Liberal). E, claro, uma reforma fiscal agressiva, com menos progressividade e menos impostos sobre o capital.

Não se trata apenas de propostas técnicas. Estas ideias revelam uma mudança de paradigma: o Estado Social, tal como o conhecemos em Portugal desde a Constituição de 1976, passa a ser visto como problema, não como conquista.

Ao mesmo tempo, cresce a influência de redes internacionais como a Atlas Network ou a Heritage Foundation, conhecidas por apoiar movimentos anti-Estado e por promover uma agenda ultraliberal e conservadora. O Instituto +Liberdade, fundado por Carlos Guimarães Pinto, antigo presidente da IL, é parceiro da Atlas Network. Membros do partido participaram em formações e eventos promovidos por estas organizações, que incluem financiamento e partilha de estratégias comunicacionais e legislativas. Um artigo do Esquerda.net destaca, inclusive, o apoio financeiro de indústrias do petróleo e tabaco a projetos ligados a essas redes.

Apesar disto, a IL continua a apresentar-se como liberal. Mas a diferença entre liberalismo e libertarismo não é apenas semântica. É uma diferença de modelo de sociedade: num, o Estado garante condições para o exercício da liberdade; noutro, o Estado é apenas tolerado enquanto não interfere.

Esta metamorfose da IL pode não ter impacto eleitoral imediato, mas terá, certamente, impacto discursivo. Se as suas ideias ganharem centralidade na direita portuguesa, podemos assistir à normalização de uma agenda que, em nome da liberdade, pode fragilizar ainda mais os mais vulneráveis.

O debate está aberto. E é urgente.

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