A Ucrânia, a Palestina e a ordem internacional em erosão

Paulo Trindade

Janeiro 3, 2026

Há momentos históricos que funcionam como testes de stress à ordem internacional. Não porque introduzam algo radicalmente novo, mas porque tornam visível aquilo que já vinha a degradar-se em silêncio. A guerra na Ucrânia é um desses momentos. O seu desfecho não dirá apenas algo sobre a relação entre Kiev e Moscovo; dirá, sobretudo, se o princípio fundamental do pós-guerra — o de que território não pode ser conquistado pela força — continua a ter validade prática no século XXI.

Ucrânia: mais do que uma guerra, um precedente

Desde 2022, a invasão russa tem sido descrita como uma violação clara do direito internacional. E é. A Rússia tentou redesenhar fronteiras através da força militar, num gesto que muitos acreditavam ter ficado enterrado com a Segunda Guerra Mundial. Mas o que está agora em causa não é apenas a agressão inicial — é a forma como o conflito poderá terminar.

Um acordo que legitime ganhos territoriais obtidos pela violência, mesmo que disfarçado de “realismo” ou “compromisso inevitável”, criaria um precedente perigoso. Não apenas porque recompensaria a agressão, mas porque sinalizaria algo mais profundo: a fadiga do Ocidente em sustentar os seus próprios princípios quando o custo político se torna elevado.

A diferença entre um cessar-fogo e um acordo de paz é crucial. Um cessar-fogo congela a violência; um acordo de paz redefine a ordem. Se a Ucrânia for empurrada para aceitar perdas territoriais sem garantias de segurança duradouras, o resultado não será estabilidade, mas apenas uma guerra adiada. Uma paz com prazo de validade anuncia, desde logo, a próxima guerra.

Mais ainda: um acordo frágil inviabiliza a reconstrução económica, afasta investimento e mantém o país num limbo estratégico. Quem investe seriamente num Estado cuja soberania está contratualmente suspensa? Quem reconstrói sabendo que a ameaça regressa quando o calendário político o permitir?

É por isso que o futuro da Ucrânia é observado com atenção muito para além da Europa. Em cada capital que vive sob a sombra de um vizinho mais poderoso, a pergunta é simples: vale a pena confiar na ordem internacional, ou é mais prudente preparar-se para a lógica do mais forte?

Quando as regras são seletivas: o espelho palestiniano

É aqui que o discurso ocidental começa a revelar uma fratura difícil de ignorar. Porque o princípio que se afirma defender na Ucrânia — a inadmissibilidade da conquista territorial pela força — é sistematicamente relativizado noutro contexto central da política internacional: a Palestina.

Há décadas que Israel ocupa territórios que não lhe pertencem segundo o direito internacional. Na Cisjordânia, a expansão contínua de colonatos altera deliberadamente a realidade no terreno, tornando cada vez mais inviável uma solução política baseada em dois Estados. Em Gaza, a destruição em larga escala e o controlo territorial reforçam uma lógica de facto consumado: primeiro impõe-se a força, depois discute-se a política.

O paralelismo com a Ucrânia não está nas circunstâncias históricas — que são distintas — mas na lógica estrutural: ocupar, normalizar, negociar a partir da posição de força. Em ambos os casos, a comunidade internacional acaba por exercer maior pressão sobre a parte mais fraca para aceitar o “realismo”, enquanto o ocupante enfrenta consequências limitadas ou meramente retóricas.

A contradição é evidente. O Ocidente apresenta-se como defensor da ordem baseada em regras, mas aplica essas regras de forma seletiva. Condena — e bem — a agressão russa, mas tolera ou apoia a ocupação israelita. O resultado não é apenas hipocrisia moral; é erosão estratégica.

Porque esta incoerência não passa despercebida. Nem em Moscovo, nem em Pequim, nem no chamado Sul Global. Quando as regras parecem existir apenas para adversários, deixam de ser regras e passam a ser instrumentos de conveniência.

A ordem que se desfaz por dentro

A ordem internacional não colapsa com discursos inflamados nem com declarações solenes. Colapsa por precedentes. Cada exceção justificada, cada violação tolerada, cada princípio relativizado em nome da conveniência política contribui para um mundo mais instável e mais cínico.

Se a Ucrânia for forçada a aceitar uma paz que legitime a conquista pela força, isso não será um acidente isolado — será a confirmação de uma tendência. Mas essa tendência não começou em 2022. A Palestina é, há muito, o exemplo de como a normalização da exceção fragiliza o todo.

Talvez por isso a verdadeira escolha não seja entre paz e guerra. Seja na Ucrânia, seja na Palestina, a escolha é entre uma paz que previne a próxima guerra e uma paz que apenas a agenda. O problema é que, quando as regras deixam de ser universais, a segunda opção torna-se a mais provável.

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