O centro democrático sob cerco

Paulo Trindade

Janeiro 24, 2026

Há momentos em que a política parece funcionar. As instituições mantêm-se, os calendários eleitorais cumprem-se, os discursos repetem fórmulas conhecidas de estabilidade e responsabilidade. Tudo sugere normalidade. Mas a normalidade pode ser enganadora. As democracias raramente colapsam de forma súbita; mais frequentemente, adaptam-se até ao ponto em que deixam de se reconhecer a si próprias.

O sistema político português tem sido descrito, nos últimos anos, como tendencialmente tripolar: uma esquerda relativamente coesa, um centro-direita institucional e uma direita pós-liberal que cresce à margem — e, por vezes, à custa — do consenso constitucional. A descrição é correcta. O erro começa quando se confunde descrição com maturidade. Um sistema tripolar pode ser estável, mas pode também ser apenas uma fase intermédia, um intervalo antes de uma nova reorganização mais agressiva do espaço político.

O centro democrático não é uma evidência histórica nem uma garantia permanente. É um equilíbrio frágil, dependente de pressupostos que raramente são enunciados porque, durante muito tempo, pareceram óbvios: respeito pelas regras do jogo, aceitação da derrota, autocontenção no exercício do poder, reconhecimento da legitimidade do adversário. Quando estes pressupostos deixam de ser partilhados, o centro deixa de ser um espaço de mediação e passa a ser um território disputado.

É aqui que surge o primeiro risco. Confrontado com a contestação dos seus fundamentos, o centro tende a reagir não com afirmação, mas com adaptação. A moderação, que em contextos normais é uma virtude democrática, transforma-se numa estratégia de sobrevivência. Suaviza-se a linguagem, relativizam-se princípios, evitam-se linhas vermelhas. Tudo em nome da governabilidade, da estabilidade, da contenção do conflito. Mas governa-se com regras, não apenas com maiorias circunstanciais.

Este movimento é frequentemente apresentado como prudência. Na realidade, é muitas vezes uma forma de adiamento. Adia-se o confronto com aquilo que realmente mudou; adia-se a necessidade de nomear o que está em causa; adia-se a decisão de dizer não. O problema é que cada adiamento desloca o centro um pouco mais, até que aquilo que antes era exceção se torna hábito, e o hábito se transforma em norma.

A clivagem política decisiva do nosso tempo já não é a tradicional oposição entre esquerda e direita, nem a caricatura de um confronto entre socialismo e não-socialismo. Essa linguagem pertence a um outro século e serve sobretudo para mobilizar medos antigos. A clivagem actual é mais funda e mais incómoda: pluralismo versus personalismo; democracia constitucional versus poder iliberal; contenção institucional versus liderança salvacionista.

Este conflito não se joga apenas em programas eleitorais. Joga-se na relação com as instituições, no respeito pelas regras informais, na tentação de concentrar poder, na facilidade com que se aceita a erosão gradual de garantias em troca de eficácia política. Não exige rupturas espectaculares; basta normalizar pequenos desvios, um a um.

O centro democrático encontra-se aqui num paradoxo difícil. Foi concebido para arbitrar conflitos normais, não para enfrentar projectos que questionam os próprios fundamentos do sistema. Quando resiste, é acusado de bloqueio; quando cede, legitima; quando negocia, normaliza; quando se cala, autoriza. A sua margem de manobra parece estreitar-se precisamente porque durante demasiado tempo se habituou a não ter de a usar.

É neste contexto que importa recuperar uma distinção essencial: conciliar no método, inflexível nos princípios. O diálogo, a moderação de tom, a linguagem institucional continuam a ser indispensáveis. Mas não podem servir para negociar aquilo que torna a democracia reconhecível como tal. As regras do jogo não são um detalhe técnico; são o próprio jogo. O pluralismo político não é um ornamento; é a condição de possibilidade da democracia.

O risco que hoje enfrentamos não é o da derrota súbita do centro democrático. É algo mais subtil e, por isso, mais perigoso. O centro não está a ser vencido; está a ser diluído. Não está a cair; está a adaptar-se até desaparecer. Não está sob ataque frontal; está sob cerco silencioso.

Quando o centro abdica da sua função moral e se limita a gerir o inevitável, deixa de ser centro. Passa a ser apenas mais um actor num sistema que já não sabe muito bem o que quer preservar — apenas aquilo que quer adiar.

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