Durante anos, a Venezuela foi o retrato de um país suspenso no tempo: autoritarismo, colapso económico, repressão política e um êxodo humano de proporções históricas. Para muitos venezuelanos, a queda de Nicolás Maduro representa finalmente uma rutura — não apenas com um regime, mas com uma década de asfixia.
Essa esperança é real. E merece ser reconhecida.
Mas a forma como essa rutura aconteceu levanta uma questão inevitável: que futuro nasce quando a libertação vem de fora?
A libertação vista de dentro
Para quem viveu:
- escassez alimentar,
- colapso dos serviços públicos,
- perseguição política,
- censura e medo,
A queda de Maduro é, antes de mais, um alívio psicológico e simbólico. Há um sentimento legítimo de fim de ciclo, sobretudo entre os mais jovens, nas grandes cidades e na diáspora.
Ignorar essa dimensão humana seria tão errado como romantizar o regime deposto.
Mas a política não se faz apenas de símbolos. Faz-se de condições estruturais — e é aí que a história começa a complicar-se.
O que caiu… e o que ficou de pé
A operação que levou à captura de Maduro foi rápida e cirúrgica.
Mas foi, acima de tudo, uma decapitação do regime, não uma transformação profunda do sistema.
O aparelho de poder venezuelano — forças armadas, serviços de inteligência, elites administrativas — permanece em grande parte intacto. Muitos dos rostos centrais do chavismo continuam no país e no sistema.
Isto cria um paradoxo perigoso:
o rosto caiu, mas a estrutura sobreviveu.
E quando isso acontece, o risco não é apenas a instabilidade — é a reconfiguração autoritária sob nova legitimação.
A Venezuela deixou de ser apenas um problema interno
Durante muito tempo, os Estados Unidos toleraram:
- o autoritarismo do regime,
- a repressão interna,
- o colapso económico e humanitário.
O que mudou não foi a natureza do regime.
Foi o seu enquadramento geopolítico.
A crescente aproximação à Rússia e a dependência estrutural da China transformaram a Venezuela num activo estratégico de rivais globais.
A partir desse momento, Caracas deixou de ser vista apenas como uma tragédia latino-americana. Passou a ser lida, em Washington, como uma plataforma de projeção de poder hostil no hemisfério ocidental.
Rússia: presença simbólica e militar
A relação entre a Venezuela e Moscovo não foi apenas diplomática. Incluiu:
- cooperação militar,
- assessoria estratégica,
- presença de equipamentos e pessoal,
- alinhamento político explícito contra os EUA.
Num mundo marcado pela guerra na Ucrânia, isto foi interpretado como a normalização da presença russa no “quintal” americano.
Não por representar uma ameaça militar direta, mas por quebrar um tabu geopolítico histórico.
China: influência silenciosa, mas profunda
A China jogou um jogo diferente — menos ideológico, mais estrutural.
Pequim tornou-se:
- credora central do regime,
- parceira energética privilegiada,
- investidora em infraestruturas estratégicas,
- garante de sobrevivência económica quando o Ocidente fechou portas.
O resultado foi uma dependência por dívida que condiciona decisões soberanas a longo prazo.
Para Washington, isto significava algo simples e inaceitável:
um país com as maiores reservas de petróleo do mundo fora da sua órbita económica e estratégica.
Trump e a lógica da força
A decisão de Donald Trump não foi movida por ideais democráticos nem por humanitarismo. Foi realpolitik pura.
Trump não fala a linguagem dos valores. Fala a linguagem do poder:
- contenção de rivais,
- demonstração de força,
- controlo de activos estratégicos,
- reposicionamento global.
A leitura foi simples:
se não agirmos agora, a Venezuela consolida-se como posto avançado russo-chinês.
E isso, para Trump, era uma linha vermelha.
O petróleo: reconstrução ou nova dependência?
A reconstrução venezuelana passará inevitavelmente pelo petróleo.
A questão não é se, mas como.
Há dois caminhos possíveis:
- usar os recursos para reconstruir o Estado e a sociedade;
- pagar a “libertação” com concessões assimétricas e perda de controlo estratégico.
Na América Latina, a história mostra que o segundo caminho cobra sempre um preço político elevado.
E quando a perceção de soberania é ferida, o nacionalismo regressa — muitas vezes sob formas autoritárias.
Democracia sob tutela é democracia frágil
Outro risco evidente é o da democracia instrumental:
- eleições apressadas,
- elites no exílio a regressar sem base social sólida,
- dependência económica externa,
- frustração popular se a vida não melhorar rapidamente.
Quando a esperança não se traduz em melhoria concreta, o vazio é rapidamente ocupado — quase sempre por soluções simplistas e personalistas.
Conclusão: esperança legítima, futuro em disputa
A queda de Maduro é, para muitos venezuelanos, um momento de libertação real.
Negá-lo seria desumano.
Mas a forma como essa queda ocorreu condiciona profundamente o futuro do país.
A Venezuela enfrenta agora o seu verdadeiro teste:
- reconstruir sem perder soberania,
- democratizar sem tutela permanente,
- usar os seus recursos sem repetir ciclos de dependência.
A fatura ainda não chegou.
Mas vai chegar.
E a pergunta decisiva não é quem derrubou o regime,
mas quem vai decidir o preço da transição — e em nome de quem.