Venezuela: esperança, geopolítica e a fatura que ainda não chegou

Paulo Trindade

Janeiro 3, 2026

Durante anos, a Venezuela foi o retrato de um país suspenso no tempo: autoritarismo, colapso económico, repressão política e um êxodo humano de proporções históricas. Para muitos venezuelanos, a queda de Nicolás Maduro representa finalmente uma rutura — não apenas com um regime, mas com uma década de asfixia.

Essa esperança é real. E merece ser reconhecida.

Mas a forma como essa rutura aconteceu levanta uma questão inevitável: que futuro nasce quando a libertação vem de fora?


A libertação vista de dentro

Para quem viveu:

  • escassez alimentar,
  • colapso dos serviços públicos,
  • perseguição política,
  • censura e medo,

A queda de Maduro é, antes de mais, um alívio psicológico e simbólico. Há um sentimento legítimo de fim de ciclo, sobretudo entre os mais jovens, nas grandes cidades e na diáspora.

Ignorar essa dimensão humana seria tão errado como romantizar o regime deposto.

Mas a política não se faz apenas de símbolos. Faz-se de condições estruturais — e é aí que a história começa a complicar-se.


O que caiu… e o que ficou de pé

A operação que levou à captura de Maduro foi rápida e cirúrgica.
Mas foi, acima de tudo, uma decapitação do regime, não uma transformação profunda do sistema.

O aparelho de poder venezuelano — forças armadas, serviços de inteligência, elites administrativas — permanece em grande parte intacto. Muitos dos rostos centrais do chavismo continuam no país e no sistema.

Isto cria um paradoxo perigoso:
o rosto caiu, mas a estrutura sobreviveu.

E quando isso acontece, o risco não é apenas a instabilidade — é a reconfiguração autoritária sob nova legitimação.


A Venezuela deixou de ser apenas um problema interno

Durante muito tempo, os Estados Unidos toleraram:

  • o autoritarismo do regime,
  • a repressão interna,
  • o colapso económico e humanitário.

O que mudou não foi a natureza do regime.
Foi o seu enquadramento geopolítico.

A crescente aproximação à Rússia e a dependência estrutural da China transformaram a Venezuela num activo estratégico de rivais globais.

A partir desse momento, Caracas deixou de ser vista apenas como uma tragédia latino-americana. Passou a ser lida, em Washington, como uma plataforma de projeção de poder hostil no hemisfério ocidental.


Rússia: presença simbólica e militar

A relação entre a Venezuela e Moscovo não foi apenas diplomática. Incluiu:

  • cooperação militar,
  • assessoria estratégica,
  • presença de equipamentos e pessoal,
  • alinhamento político explícito contra os EUA.

Num mundo marcado pela guerra na Ucrânia, isto foi interpretado como a normalização da presença russa no “quintal” americano.

Não por representar uma ameaça militar direta, mas por quebrar um tabu geopolítico histórico.


China: influência silenciosa, mas profunda

A China jogou um jogo diferente — menos ideológico, mais estrutural.

Pequim tornou-se:

  • credora central do regime,
  • parceira energética privilegiada,
  • investidora em infraestruturas estratégicas,
  • garante de sobrevivência económica quando o Ocidente fechou portas.

O resultado foi uma dependência por dívida que condiciona decisões soberanas a longo prazo.

Para Washington, isto significava algo simples e inaceitável:
um país com as maiores reservas de petróleo do mundo fora da sua órbita económica e estratégica.


Trump e a lógica da força

A decisão de Donald Trump não foi movida por ideais democráticos nem por humanitarismo. Foi realpolitik pura.

Trump não fala a linguagem dos valores. Fala a linguagem do poder:

  • contenção de rivais,
  • demonstração de força,
  • controlo de activos estratégicos,
  • reposicionamento global.

A leitura foi simples:

se não agirmos agora, a Venezuela consolida-se como posto avançado russo-chinês.

E isso, para Trump, era uma linha vermelha.


O petróleo: reconstrução ou nova dependência?

A reconstrução venezuelana passará inevitavelmente pelo petróleo.
A questão não é se, mas como.

Há dois caminhos possíveis:

  1. usar os recursos para reconstruir o Estado e a sociedade;
  2. pagar a “libertação” com concessões assimétricas e perda de controlo estratégico.

Na América Latina, a história mostra que o segundo caminho cobra sempre um preço político elevado.
E quando a perceção de soberania é ferida, o nacionalismo regressa — muitas vezes sob formas autoritárias.


Democracia sob tutela é democracia frágil

Outro risco evidente é o da democracia instrumental:

  • eleições apressadas,
  • elites no exílio a regressar sem base social sólida,
  • dependência económica externa,
  • frustração popular se a vida não melhorar rapidamente.

Quando a esperança não se traduz em melhoria concreta, o vazio é rapidamente ocupado — quase sempre por soluções simplistas e personalistas.


Conclusão: esperança legítima, futuro em disputa

A queda de Maduro é, para muitos venezuelanos, um momento de libertação real.
Negá-lo seria desumano.

Mas a forma como essa queda ocorreu condiciona profundamente o futuro do país.

A Venezuela enfrenta agora o seu verdadeiro teste:

  • reconstruir sem perder soberania,
  • democratizar sem tutela permanente,
  • usar os seus recursos sem repetir ciclos de dependência.

A fatura ainda não chegou.
Mas vai chegar.

E a pergunta decisiva não é quem derrubou o regime,
mas quem vai decidir o preço da transição — e em nome de quem.

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