PS: Entre o legado e labirinto

Paulo Trindade

Maio 23, 2025

Há legados que se escrevem com vitórias e outros com equívocos. O de António Costa é um pouco dos dois. Estabilizou o país com a famosa “geringonça”, desafiando o modelo clássico de governação em Portugal. Mas esse movimento, que devolveu protagonismo à esquerda, afastou o PS do centro político, onde sempre soube construir maiorias e negociar consensos. A curto prazo, a estratégia resultou. A médio e longo prazo, revelou-se arriscada.

A insistência em colocar o CHEGA no centro do debate foi outro erro. Costa achou que era útil confrontar diretamente a extrema-direita, mas acabou por lhe dar palco, estatuto e, paradoxalmente, normalização. O PSD, por sua vez, ficou encurralado entre a moderação e a sombra crescente de Ventura, perdendo a nitidez necessária para se afirmar como alternativa. Não por muito tempo.

E chegamos então a Pedro Nuno Santos, herdeiro direto de uma máquina já desgastada. Trouxe energia e discurso ideológico claro, mas falhou no cálculo político. Ao votar contra a moção de confiança de Montenegro, precipitou novas eleições quando o mais sensato teria sido aguardar pelos resultados da comissão de inquérito ao caso SpinUnviva. Foi um gesto que soou mais a impulso do que a estratégia — e o país reagiu. Na campanha para as eleições o PNS andou perdido entre o radical (cuja imagem criou)  e o moderado (que tentou parecer). O PS sofreu uma derrota pesada e PNS saiu de cena de forma abrupta.

Agora, perante a desorientação evidente, o PS tem de fazer uma escolha urgente: continuar num registo de confronto e incerteza, ou recentrar-se — ideológica e institucionalmente. Portugal precisa de estabilidade, de diálogo, de um partido socialista capaz de reconstruir confiança. Não é com ruído que se chega lá.

O labirinto deixado por Costa e aprofundado por Pedro Nuno não se resolve com passos em falso. Resolve-se com bússola, paciência e humildade política. E com um urgente regresso ao centro.

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